sexta-feira, 15 de julho de 2016

Um não às 4h48?

O dia a dia é dolorido. Mais dolorido, porém, é descobrirmos que essa rotina mordaz é consequência... nossa só. Já percebeu que ela não dói devido a seguirmos um roteiro pronto? É bem o contrário: dói se concretizamos uma fuga.

O diferente é quem mais se machuca. Na moda, você recebe elogios; na onda, você possui muito companheiro. Fora das rádios populares? As críticas e a solidão subsequente aos olhares de reprovação. Afinal, por que soar em acorde contrário ao padrão de três?

Ao fugir da autoajuda, novo impacto: pessimismo, descrença. Um erro? Uma pancada! Outro erro? Outra pancada. Um acerto? Ué, é obrigação! – a qual curiosamente depende da... alheia interpretação?! 

Ai se méritos fossem escancarados como falhas são!

Arrisque precisar de alguém, se tiver coragem: cada um na sua caverna se fixa! Anuncie um pote de ouro: todo mundo passa a ser sol. A gangorra pesa, novamente, à alheia interpretação, como defendeu o músico: "De onde menos se espera / dali mesmo é que não vem".

Sei: até dentro dos padrões alguém pode estar fingindo. Falsetes falsos são fáceis de fazer! Só que esta crônica gira em torno das exceções, sabe.

E é exceção quem reconhece nossa humana caminhada triste, dolorida.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Infelizmente, comum

Imagine que você está estudando uma disciplina qualquer, por exemplo gramática. Após ler a teoria e perceber que não compreendeu todo o conteúdo, você relê a matéria com atenção redobrada; após encarar os testes e perceber que errou algumas respostas, você corrige tais exercícios com rigor diferente. Dá um trabalhinho, mas essa é uma técnica que bastantes estudantes adotam; poderia, inclusive, extrapolar o universo estudantil e pairar sobre o mundo trabalhista. Evitaria aborrecimentos.

Infelizmente, a solidez vive longe das atividades profissionais. Passou da hora de os cidadãos perceberem que um erro pode ser devidamente superado se um pedido de desculpas rolar e uma empreitada rumo ao acerto for instaurada. O problema é que mesmo quem conhece essa lógica não age assim. Meu condomínio ilustra bem esses ambientes de oba-oba. Recentemente, um dos funcionários transgrediu uma norma interna, o que me gerou certo transtorno. Quando reclamei, o síndico quis engrossar o tom e argumentar que EU estava errado, isso porque fui incisivo em minhas queixas. Eis uma tática famosa de quem tentar driblar as próprias faltas, só que tapetão pra cima das minhas reclamações não rola.

Ou não rolava. O contexto de fuga das responsabilidade é tão comum que a vontade de exigir passos corretos vai sumindo. Constantemente, ouço pessoas que passaram a ser mais pacientes ao decorrer dos anos, e o incrível é que nem todas atingem esse estágio devido a "amadurecimento". Muitas simplesmente percebem que desejar que certos profissionais sejam justos parece desejar que esses profissionais viajem a uma guerra, ou seja, eles farão de tudo para evitar. Obviamente, não estou defendendo que trabalhador seja escravo, subserviente. A percepção correta é: quando piso num tablado, vou dar a melhor aula que eu conseguir, pois isso é o melhor para o coletivo. O médico deveria ser assim, o porteiro, o cobrador, o advogado, o síndico...

Friso que não quero dar lição de moral. Já errei no meu dia a dia e guardei um nó gigante quando não consegui me desculpar ou corrigir a falha. Concordemos, porém, que não é necessário sorrisinho cordial (falso) para cumprir-se uma norma que ajudará todo mundo que estiver envolvido. O mesmo sorrisinho não vai rolar após algum incompetente atrapalhar nosso dia a dia. Você logicamente se irrita quando não entende a matéria ou erra o exercício, lá na gramática, mas evolui quando corrige os tropeços estudantis e prova qualificação. É tão difícil ser assim no mercado de trabalho também?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A dança dos deuses (movimento 1)

Seria no mínimo ingênuo acreditar que futebol são apenas 22 malucos correndo atrás de uma bola e... nada mais. Não é bem assim.

Basta observar algumas das rivalidades mundiais para comprovar a amplitude sociológica por trás de uma partida de futebol. Na Escócia, por exemplo, Celtic e Rangers encenam o extremo entre católicos e protestantes. Nos primórdios de Old Firm, a religião era determinante inclusive para decidir em qual time atletas atuariam. Não é à toa que jogador já até apanhou nos gramados do clássico. Desleal? A sociedade real também o é.

Há quem pense: "Celtic e Rangers são dois times inexpressivos". Todavia não se pode afirmar isso sobre Real Madrid e Barcelona – entiendes? Por trás das cifras milionárias que envolvem as duas equipes espanholas, pulsa uma veia social fortíssima, opondo à capital Madrid a autônoma Catalunha. Da época do regime franquista às recentes declarações de Piqué, uma vitória do time catalão demarca, na mente de um culé sonhador, até mesmo um passo para a independência de sua comunidade. Utópico? A sociedade ideal o é também.

No Brasil a valsa segue ao mesmo compasso. O meu time do coração simbolizou, historicamente, luta contra o racismo: abria-se a jogadores negros recusados pelo rival. Outros casos notórios também simbolizaram as diferenças, por exemplo, de renda: o clube "dos ricos" e o clube "dos pobres" se embatiam... Em estádios nacionais, aliás, ainda hoje se observam cenas de discriminações – lástima infelizmente recorrente em arenas do globo todo. Um terceiro lado triste da sociedade real.

O título desta crônica faz referência a um livro de Hilário Franco Júnior. O leitor que goste de futebol deve ler tal obra. O que não goste do esporte, mas curta sociologia e afins, também precisa folheá-la. Isso vai ajudar a concretizar que futebol não são apenas 22 malucos correndo atrás de uma bola: trata-se, na verdade, de uma importante metáfora histórico-social.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

1943 – 2015

A atriz sobe no palco para encantar o público... outra vez. Ela declama, dança, canta – e a plateia começa a perceber a própria vida.

O senhor, já velhinho, lembra-se de folias várias. As festas da sua adolescência (“Diferentes dessas putarias de hoje”) faziam-no bastante feliz. Considera também que as próprias experiências amorosas poderiam virar uma peça, mas ele saberia interpretá-las com a excelência da atriz? Resigna-se à força da memória, comemorando viúvo por ter sido feliz.


A senhora, vestida de preto, chora a solidão. Conviveu durante um tempo longo com alguém que não a amava, mas qual o mal? Gostava dele. Gostava de verdade! Até hoje visita o túmulo de quem, embriagado, agredia-a todo dia – e amargura críticas por isso. Só que ao ouvir a atriz jurar paixão eterna, no primeiro ato da peça, percebe que ainda pode, no último ato da vida, buscar alguma boa lembrança que se sobreponha às antigas aflições.


A jovem sonhadora encanta-se com a poesia da atriz. Enxerga em cada fala as próprias idealizações para o amor. Está naquela fase em que (se) acredita que tudo vai ser perfeito, mal sabendo que o rapaz que a olha, na fileira ao lado, será o responsável pela primeira decepção passional. É um belo roteiro para alguma tragédia, mesmo que tal trama já seja manjada... A jovem, no entanto, vai optar pelo risco.

A própria atriz se redescobre. O teatro é sua vida – e as transformações da personagem são as transformações da própria mulher. A indumentária, a sonoplastia, as marcações não se restringem à ficção: amalgamam-se ao concreto e ninguém separa mais o cisne da bailarina. Após duas horas, quando abandona o palco, nota que não consegue parar de interpretar. Só que essa interpretação não é mais mentirosa: é aquela necessária à felicidade idiossincrática (encanto maior não há).

Já o cronista... O cronista aprendeu um novo modo de enxergar a si mesmo. A atriz explana todas as sensações – e ele tem todas essas sensações em si, mas não conseguia alcançá-las. Cada diálogo a que ele assistiu resgatou mudanças: o aperto de mão mais sincero, a paciência com quem reclama, o trecho certo do clímax e do desfecho. Cena após cena, o teatro desmistifica a impossibilidade de mudança do homem, sem muito mistério em torno do porquê disso...

É que a atriz ensina, no palco, como a vida fora dele deve ser.

domingo, 12 de maio de 2013

A mãe

Quem mais, além dela, trama cenas inconvenientes e mesmo assim não nos chateia? Quer dizer: na adolescência, odiamos quando os amigos riem da foto do neném pelado; um pouco mais maduros, todavia, aprendemos a fazer piada desse tipo de sacanagem na qual mãe é especialista. Tão normal!

Lembro-me de já ter passado poucas e boas nas mãos da minha progenitora. Algumas surras foram antológicas, assim como o abraço após as decepções que a vida insiste em nos apresentar. Hum... e quando a gente volta correndo pra casa, após a temporada na praia, só pra provar o feijão que apenas ela sabe preparar? (Pode trocar o feijão por outro prato de maior preferência.)

Mães têm um quê de bruxa e fada. Elas encontram, na devida prateleira, a blusa que por vinte mil vezes havíamos procurado! E se negligenciamos essa mesma peça de roupa antes de um passeio num dia ensolarado, o arrependimento bate nervoso: frio cortando até a alma. A gente demora a aprender que palavra materna não deve ser desobedecida.

Alguém já viu uma mãe chorar? Nada parte mais o coração. E pensar que esse pranto tantas vezes é unicamente por nossa culpa... Ela também dorme menos do que nós, visto que precisa estar apta a nos embalar ou preparar um café que deveria ser capaz de vencer qualquer mau humor matinal. Tudo isso sem cobrar taxa de serviço - pelo menos não em espécie.

Antes de publicar esta crônica, mostrei o esboço à minha mãe. O que ela disse? "Muita gente vai criticar o título, que não demonstra... criatividade". Rebati, porém: quer palavra mais criativa, na teoria e na prática, do que "mãe"? Inclusive quando, durante uma bronca, repete mil vezes que sem ela a casa inteira morreria...

E com razão.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Déjà vu

Jogar uma pedrinha num concentrado d'água dissimula razões. Tal ato esconde, nem que seja, a sensação de que as ondinhas metaforizam as tentativas do atropo-cotidiano. Dependendo da força aplicada no arremesso, as ondulações demoram mais para cessar. E as veredas humanas são diametralmente afins a isso: certa intensidade de desejos determina a prorrogação de gestos, segredos e aflições.

Talvez tenha sido Nietzsche que esmigalhara o Estado a um cenário em que homens se retiram da vida sob um modo condenável pelo viés respeitável. Derramo essa semântica ao ser-para-si, como compensação. O indivíduo delimita-se, (quase) laconicamente, a rígidas determinações contrárias ao coerente (com)portar-se. Nesse processo de negação, ocorrem as desassociações contínuas que impedem o usufruir, quem sabe, do bom impulso - em estilo, quiçá, mútuo ao carpe diem.

Patentemente, as ondas "duplamente" idiossincráticas em que o ser-para-si flui ou atraca ratificam a normalidade dos movimentos coletivos. No entanto, deveriam retificá-los: abraçar uma maré social somente (somente!) denota incongruência entre uma necessidade e um desejo. Se este determina a posição de distanciamento a partir de mágoas, normas deveriam sistematizá-lo como essencial em todos os âmbitos, principalmente em detrimento a necessidades de cunho, por assim dizer, cristão. 

E o concentrado d'água, quando menos se espera, retorna à física de antes do atrito com o pedregulho. A certo clique, entretanto, você pensa: "Basta correr até o outro lado do açude e jogar nova pedrinha!". Não obstante a corrida desesperada, o inédito arremesso não revela nada que satisfaça: suspeitas ou incertezas persistem e correr de novo não soa o melhor fármaco. Em foco: soa um ciclo, soa um vício... mas apenas talvez soe uma esperança.

sábado, 30 de março de 2013

Pra não dizer que eu não falei de...

Você clica no "play" do iTunes e sua vida se torna linhas melódicas. Afinal, raro é o indivíduo que nunca se enxergou na letra de alguma canção. Alterações cíclicas nas personalidades musicais eventualmente ocorrem, claro. Todavia, desapegar-se totalmente de um acervo com meia dúzia de vitais CDs soa impossível para muita gente. Por exemplo, para mim.

Há quem aprenda a socialmente protestar ouvindo Chico Buarque e sua voz contrária à ditadura militar. Nos anos 1980, bandas de um pop rock inigualável também deram tom à crítica que muitos jovens gostariam de impor! De "Roda viva" a "Até quando esperar", conta pontos refletir sobre como a arte consegue engajar-se a ponto de produzir belas metáforas, as quais simbolizem a impaciência com situações pulsantes. Vivência e ardor.

A bossa nova manifestou refinadíssimas as percepções por que um ser humano pode perambular. Se "Chega de saudade" apresentou a inovação no jeito de embalar o violão, "Garota de Ipanema" remoldou a mulher-violão, acentuando as consequências mágicas dela em tudo e todos que a observam. Ah... "Se todos fossem iguais a você", só pelo título, já encerra o gostinho de cadenciar o que a gente sempre quis gritar para a pessoa que nos mostrou novo modo de sorrir - sob a certeza de torná-la uma verdade incontestável. Inovações, sínteses e fantasias.

E quanto ao que pode rolar num... fundo de quintal? Pois é, meu amigo, o "por baixo dos panos" nasceu com o samba! A sensação tão provocante que o momento "escondidnho" pode causar se liga à música que é a cara do Brasil, que embala a gafieira, na qual dois corpos explodem, explodem, explodem! Daí pra frente, é aquele papo: o que é que a baiana tem, nervos de aço e salve Santa Clara. Perigo e ambição.

Mas também há o sertanejo de Pena Branco e Xavantinho, retratando o homem da terra; um rap, dando voz à discriminação inserida nas camadas sociais; bons repentes, gerando humor e leveza até para quem caminha na Rua XV de Novembro! Eh... não há como negar que existe a canção certa para cada indivíduo. Mesmo quando a gente clicar no "stop" do iTunes, o compasso continuará afinado: dar-se-á início à sinfonia mental tão nítida a cada um. Por exemplo, a mim.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Eu quero sempre mais!

Algo que me entristece bastante é o desinteresse (alheio) por conhecer cultura. Às vezes, tamanha preguiça assume a face de simplesmente não consumir algo que já tenha sido indicado e, por si só, iluminaria a caverna que pode envolver o dia a dia de algumas pessoas. Machadiano, não acha?

Muitos links de músicas são compartilhados na minha página de Facebook. Obviamente, ouvir todas despenderia as vinte e quatro horas do dia - tempo que a rotina laboral ocupa cada vez mais intensamente. Todavia - nas canções que consigo curtir - reconheço, com boa frequência, sonoridade e letras memoráveis. É o repertório musical sempre ascendendo!

Livros levam mais tempo para serem apreciados, mas nem por isso perdem o posto de maior porta cultural. Um pequeno excerto já deveria ser suficiente para formar filas em livrarias ou resultar em milhares de obras sendo entregues pelos Correios. Só imaginação: o que se concretiza é a estagnação do (precário) gosto pela leitura, implicando índices baíxissmos de raciocínio, interpretação, lógica...

Pense no cinema, nas peças de teatro, na boa entrevista passando na TV... Hoje mesmo, há pouco, assisti ao programa Esquenta (do qual não gosto nadica) somente porque soube, via Twitter, que "um tal de Roberto DaMatta" estaria por lá. O antropológo falou umas verdades e eu fiquei feliz por conseguir garimpar raro ouro na televisão domingueira. Um viva aos tuiteiros!

O pensamento popular brasileiro prega algo como "Desistir? Nunca!" - e vou procedendo a ele. É difícil lidar com a realidade de que um cidadão não lê nem sequer um artigo de opinião durante o mês, mesmo sabendo que terá de escrever uma dissertação no ENEM. Complicado! Mas pretendo, mesmo assim, continuar indicando músicas e livros, estimulando a filmes e entrevistas... e alimentando sonhos também.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Coração de luto

Recuso-me a ouvir Teixeirinha hoje. A genialidade do compositor permanece a mesma, porém a música que narra a morte da mãe dele não embala o domingo após tantos mortos lá no Rio Grande do Sul. O incêndio na balada queimou bem mais do que 245 jovens.

A casa noturna teve todas as culpas. Sinalização inexistente; seguranças despreparados; irresponsabilidade de um músico; alvará vencido. Todavia, entristecedora é a lágrima da mãe que perdeu o filho; o namorado que agarrou só o corpo da companheira; os amigos que não poderão mais brindar alguma alegria.

De longe, soa insuficiente o que se pode fazer para ajudar. Orações e doações parecem tão simples! Ainda bem que há enfermeiros, médicos, psicólogos e bombeiros atuando em prol de salvar as vidas por lá - uma mão verdadeira a renascidos que poderão voltar a sorrir. E que haja força para quem não poderá mais ouvir o riso de quem tanto se amou...

Dizem que Santa Maria intercede, junto a Deus, para que os pedidos de quem nEle crê sejam atendidos. Não custa pedir, pois, que a paz retorne à homônima cidade gaúcha. E não importa se, para mim, muitos dos presentes na balada KISS eram desconhecidos: desde o dia 27 de janeiro de 2013 tenho o meu coração de luto.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O extrato do Natal

Chega ao fim mais um 25 de dezembro. E embora alguns engraçadinhos insistam em muito misturar a bebida alcoólica com o trânsito, bastantes familiares dirigem para casa felizes, de barriga cheia e com vários presentes. O dia fora, de fato, magnífico.

Não se trata de reviver um lado religioso. Penso apenas numa mesa farta, com a costela a desmanchar; a caipirinha, no balcão do truco, trincando; um violão no qual se relembram boas canções. E os parentes dando risada como se não houvesse um dia de trabalho por vir (junto às respectivas dores de cabeça)?

A gente tem o direito de, por instantes, simplesmente comer, beber e divertir-se. Alguns tios, inclusive, levam isso bem a sério! E mesmo as tias que tanto falam mal da vida alheia estão no seu direito: é do momento! Deixemos de tanta seriedade, a fim de termos... mais fotos engraçadas!

Chegou ao fim, de fato, mais um 25 de dezembro. Durante algumas horas, os problemas parecem ter ficado lá fora, bem longe do portão. Não se trata de esquecer a sociedade; vale a pena, todavia, também pensar na alegria da porta para dentro.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Ai de ti, subjetividade.

Quando estamos dançando em um salão, a alegria dos passos dura bons e prolongados instantes. Trata-se de minutos de riso fácil, nos quais a angústia não dá as caras. Todavia, basta aparecer a primeira cadeira vazia para que, após diversas músicas (e respectivas coreografias), uma sugestão rapidamente ganhe força: "Não seria a hora de parar?!" A gente, então, sossega.

A dança metaforiza o cotidiano. Passo a passo, busca-se sempre o prazer mais escondido, o reconhecimento penosamente encantador. Respostas positivas provêm em escala grandiosa às vezes, mas as doses homeopáticas com que se tentar infiltrar uma decepção parecem surtir mais efeito. Nessas ocasiões, esconder-se em pensamentos vários pode até ser mais vantajoso, todavia pulsará sempre a sensação de malogro (apenas talvez inevitável). Experimente-se, por exemplo, tropeçar no meio do compasso...

A nossa prisão encerrada em liberdade causa confusão aos olhos próprios e também aos alheios. Engana-se, porém, quem acredita em que cortar as asinhas dos desejos eliminaria as incertezas. Ninguém é capaz de atingir plenamente o processo contínuo de superação, tampouco de abandonar as veredas da transcendência de valores. No fundo, ser livre é ao mesmo tempo pecado e salvação, assim como as chances de queda em uma coreografia mais complexa: da glória ao inferno.

E assim se segue a tentativa de abandonar as cavernas quotidianas. Tal atitude de descoberta de uma nova amplitude, por sua vez, pode gerar conflitos entre (ex-)iguais, pois parece complexo conviver à escuridão de quem já recebera esclarecimento mas, por teimosia ou ingenuidade, prefere imobilizar-se pessoal e socialmente. É como bailar junto a alguém que deseje a fluência plena não obstante esteja com a perna quebrada: no mesmo salão, haverá giros em harmonia mais plausível e inflamável.


Só que, após minutos na cadeira, pode "aparecer" uma nova valsa estimulante - junto a uma nova melodia. Aí, recomeça-se a dançar em campo minado (ou não).

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Falta(rá) um brinde.

Na (des)organização social brasileira, é comum notarmos algumas estruturas gritando por liberdade. Tal premissa se trata de uma negativa imposição semântica ao conceito comemorado no dia 7 de setembro. Pensemos, nesse sentido, apenas em educação, saúde pública, segurança social - pilares que, há muito tempo, desejam uma independência em relação aos aspectos destrutivos que os norteiam.

Muitos professores guerreiam diariamente pela liberdade de poderem ensinar como realmente se deve. Além disso, anseiam por um salário digno à categoria e, acima de tudo, desejam o respeito social pela classe que formula todas as outras. Porém, como ocorre nas revoluções, tais profissionais enfrentam entraves dentro da própria ideologia, visto que precisam lidar com companheiros de jaleco que não se importam, por exemplo, com o objetivo de uma greve. Dificultar o progredir.

Em postos de saúde, é preciso brigar (em vários casos, literalmente) por uma senha. As batalhas começam já na triagem para o possível atendimento, estendendo-se às horas de espera pelo diagnóstico e terminando, muitas vezes, no atendimento precário por parte do especialista. E ai de quem resolve discordar do sistema: a mídia, no papel de opressora sensacionalista de liberdades, classifica qualquer grito por mudança como vandalismo. Criminalizar o progredir.

Libertar-se da violência é um desejo profundo de 90% da nação (os outros 10% lutam com todas as armas para mantê-la). Os centros urbanos se desenvolvem em espírito de exclusão social, gerando municípios cada vez mais violentos e aumentando o pessimismo em relação à paz coletiva. E, nesse ponto, é comum perceber, de novo, que os próprios mecanismos de defesa se voltam contra o cidadão: casos de abuso policial são extremamente comuns. Mascarar o progredir.

Tornar-se independente está cada vez mais utópico. O porquê disso se resume a uma fórmula conhecida: um povo doente e mal educado (leia-se: alienado) acreditará facilmente que invadir favelas, a tiros e pontapés, resolverá o problema da pancadaria urbana. Com essa ilusão, fica fácil continuar reprimindo a vontade de liberdade que de certos pilares urge - liberdade que permitiria o verdadeiro salto rumo ao desenvolvimento nacional.

Brindes só acontecem em momentos nos quais todos os participantes estão felizes. Recuso-me, então, a levantar minha social taça de vinho: há muitos guerreiros que não estão independentes o suficiente para sentarem-se à "nossa" mesa de "felicidade".

domingo, 22 de julho de 2012

Rumo à normalidade

2012 representa mais um ano eleitoral em terras brasileiras. E antes das urnas, como sempre, haverá aquele tipo de chateação com que o cidadão já está habituado: santinhos deixando as ruas imundas; churrascos às escondidas (uma linguiça tem poder incrível); assistencialismo barato. Por conta disso, pessimismo é a única sensação possível em relação à politicagem nacional.

O que assaz incomoda é justamente o fato de toda essa má conduta por votos ter se tornado socialmente aceitável. Devido à recorrência das asquerosas manobras para conquistar mandatos, os candidatos sabem que não precisam apresentar boas propostas de campanha, pois o marketing rasteiro - aliado a algum benefício "por baixo dos panos" - faz milagres maiores do que uma posterior concretização de, por exemplo, metas educacionais. Afinal, por que educar quem precisa manter(-se) desinformado?

Nesse sentido, é imprescindível, embora também (historicamente) redundante, apontar a gigante culpa dos eleitores no esdrúxulo cenário político brasileiro. Qualquer popular minimamente pensante consegue perceber que um senador envolvido com bicheiro é resultado de um voto comprado ou, no mínimo, impensado. E pensar em política soa praticamente insano para uma nação onde muitos habitantes consideram nomes como Tiririca sinônimos de "votar com rebeldia" (acreditem, é verdade). 

Lembro-me de que, numa aula do Ensino Médio, certa professora de física comentou que era ilusória a noção de um sistema o qual pudesse continuar indefinidamente em movimento por meio de energia por ele mesmo gerada. Hoje, todavia, arrisco-me a discordar um pouco de minha docente. A politicagem corrupta no Brasil é um moto-perpétuo descarado: eleitores alienados geram políticos corruptos, que geram eleitores alienados, que geram políticos corruptos...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

UMA MODERNIDADE SEM PROIBIÇÕES


"Sobre a dificuldade em obedecer às leis, vale contar uma anedota reveladora, ouvida nos Estados Unidos, onde todos se pensam como fiéis e felizes seguidores voluntários das leis: num bote à deriva, náufragos em desespero calculavam suas chances de sobrevivência quando dois deles, os mais cínicos, resolvem fazer uma aposta bizarra. “Quer ver como eu faço com que todos se atirem ao mar?”, disse um deles, lançando um olhar de desafio ao companheiro. “Fechado”, respondeu o amigo, “quero ver quem, nesta situação, vai trocar a segurança do barco pelo mar aberto.” O Proponente foi até o grupo e disse a um inglês: “As tradições da marinha inglesa demandam que você se atire ao mar. É uma questão de honra e valor; afinal, “Britannia rules the waves”, solfejou. O inglês ficou de pé, fez continência, e imediatamente atirou-se ao mar. Em seguida, o apostador falou para um russo: “Em nome da revolução, você deve se sacrificar pelo coletivo. Abandonando o barco, você faz um ato altruístico e revolucionário, deixando mais água e comida para os mais egoístas e fracos.” Ao cabo de alguns minutos, o comunista pulou do bote. Restavam três pessoas. Diante do americano, ele foi direto: “Se você sair do bote, sua família recebe um seguro de dois milhões de dólares!” O americano disse “Yeah” e atirou-se na água. Triunfante, o apostador comentou: “Eu não disse que fazia com que pulassem?” O amigo respondeu: “Sim, mas ainda faltam dois e, olha, eles são brasileiros, não há como apelar.” “Esses são fáceis”, retrucou o apostador, dirigindo-se aos dois brasileiros que se consolavam mutuamente cantando “é doce morrer no mar”. “Amigos”, disse, “vocês sabiam que existe uma lei que proíbe pular na água?” Mal o apostador havia terminado a frase, os dois brasileiros já estavam, rindo, em plena água."

(Trecho retirado do livro Fé em Deus e pé na tábua ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil, do antropólogo Roberto DaMatta.) 


quinta-feira, 24 de novembro de 2011


Balada das Mocinhas do Passeio

quem são elas
em tão grande número
de onde vêm?
de que subterrâneos porões cavernas?
são os derrelitos do Dilúvio Universal?

você chega corre parte
mas não as mocinhas do Passeio Público
não chegam nem parte
estão sempre lá

incansáveis caminham
pra cá pra lá
sempre estiveram
pra lá pra cá
estarão para sempre

minissaias coxas varicosas
foto na hora
botinhas altas de sola furada
algodão-doce pipoca
boquinhas em coração de carmim
antes ventosas de medusas vulgívagas
psiu! oi tesão! vamo?

atração maior do Passeio
não é a gaiola do mico-leão-dourado
o aquário do peixe-elétrico
as cobras catatônicas o iguana pré-histórico
o pelicano papudo de asas entrevadas
tipo o albatroz no barquinho de Baudelaire

não é o viveiro de aves canoras
epa! Um casal intruso de arapongas
desde quando a-ra-pon-ga trina e gorjeia?

o espetáculo do Passeio
não são as araras bêbadas aos berros
nem o velho cedro florido de garças-brancas

a grande festa do Passeio
são as mocinhas pra cá pra lá
na ronda sempiterna do amor

uma só delas
vale um circo inteiro em desfile
com a anãzinha das piruetas no cavalo pimpão
a engolidora de espada de fogo
a elefanta graciosa no chapeuzinho de flores
a trapezista do duplo salto mortal
sem rede!

discutem gentilmente o preço
uma rapidinha quanto é?
como se vendem fácil
as damas peripatéticas do Passeio Público

ao sol ao frio à chuva ao granizo
com fome com febre com tosse
estão sempre lá
à caça dos clientes furtivos
mais duradouras
que  o carvalho e o plátano seculares

lá estão sempre
as famosas mocinhas do Passeio
nem tão mocinhas
são trágicas são doentes são tristes
quem pode querer tais centopeias do horror
como esperar que alguém as cobice
derradeiros objetos do desejo?

medonhas aberrações teratológicas
galinhas de duas cabeças
treponemas pálidas
íbis sagradas de carapinha negra
aracnídeas hotentotes
gárgulas banguelas gargalhantes?

aí é que se engana
são desejadas sim cobiçadas sim disputadas sim
essas últimas mulheres da Terra
não fossem elas
o que seria dos últimos homens da Terra?

esses hominhos desesperados
sempre com sede com febre com tosse
sobretudo famélicos de um naco de carne
arre danação maldita da carne
urra salvação da carne da vida

são feiticeiras Circes
das verdes águas podres do Rio Belém?
são górgonas grotescas?

pudera com tais clientes
mequetrefes bandalhos escrotos
que não fazem amor
estripam curram vampirizam

são elas blasfêmia abominação escândalo
dos falsos profetas
das mil igrejas de Curitiba
veros cafetões do dízimo?

elas são na verdade o sal da terra
são irmãs de caridade
são madonas aidéticas
são santinhas do Menino Jesus
onde tocam saram os carbúnculos malignos

não as despreze nem condene
doces ninfetas putativas do Passeio
mais fácil uma delas
passar pelo buraco da agulha
que eu e você entrarmos no Reino do Céu

ó bravas piranhas guerreiras
elas serão as sobreviventes
à sétima trombeta do Juízo Final
ao dragão e à besta do Apocalipse

no dia seguinte ao Armagedom
restarão na Terra
as baratas e elas

você chega corre passa
elas não passarão
pra cá pra lá
psiu! oi tesão! vamo?
pra lá pra cá
para todo o sempre
as minhas as tuas as nossas
putinhas imortais do Passeio Público.

(Dalton Trevisan. Poema retirado do livro Rita Ritinha Ritona.)

sábado, 13 de agosto de 2011

Versão em espanhol da história original de "Chapeuzinho vermelho".


Caperucita roja
(Charles Perrault)

Había una vez una niñita en un pueblo, la más bonita que jamás se hubiera visto; su madre estaba enloquecida con ella y su abuela mucho más todavía. Esta buena mujer le había mandado hacer una caperucita roja y le sentaba tanto que todos la llamaban Caperucita Roja.

Un día su madre, habiendo cocinado unas tortas, le dijo.

—Anda a ver cómo está tu abuela, pues me dicen que ha estado enferma; llévale una torta y este tarrito de mantequilla.

Caperucita Roja partió en seguida a ver a su abuela que vivía en otro pueblo. Al pasar por un bosque, se encontró con el compadre lobo, que tuvo muchas ganas de comérsela, pero no se atrevió porque unos leñadores andaban por ahí cerca. Él le preguntó a dónde iba. La pobre niña, que no sabía que era peligroso detenerse a hablar con un lobo, le dijo:

—Voy a ver a mi abuela, y le llevo una torta y un tarrito de mantequilla que mi madre le envía.

—¿Vive muy lejos?, le dijo el lobo.

—¡Oh, sí!, dijo Caperucita Roja, más allá del molino que se ve allá lejos, en la primera casita del pueblo.

—Pues bien, dijo el lobo, yo también quiero ir a verla; yo iré por este camino, y tú por aquél, y veremos quién llega primero.

El lobo partió corriendo a toda velocidad por el camino que era más corto y la niña se fue por el más largo entreteniéndose en coger avellanas, en correr tras las mariposas y en hacer ramos con las florecillas que encontraba. Poco tardó el lobo en llegar a casa de la abuela; golpea: Toc, toc.

—¿Quién es?

—Es su nieta, Caperucita Roja, dijo el lobo, disfrazando la voz, le traigo una torta y un tarrito de mantequilla que mi madre le envía. La cándida abuela, que estaba en cama porque no se sentía bien, le gritó:

—Tira la aldaba y el cerrojo caerá.

El lobo tiró la aldaba, y la puerta se abrió. Se abalanzó sobre la buena mujer y la devoró en un santiamén, pues hacía más de tres días que no comía. En seguida cerró la puerta y fue a acostarse en el lecho de la abuela, esperando a Caperucita Roja quien, un rato después, llegó a golpear la puerta: Toc, toc.

—¿Quién es?

Caperucita Roja, al oír la ronca voz del lobo, primero se asustó, pero creyendo que su abuela estaba resfriada, contestó:

—Es su nieta, Caperucita Roja, le traigo una torta y un tarrito de mantequilla que mi madre le envía.

El lobo le gritó, suavizando un poco la voz:

—Tira la aldaba y el cerrojo caerá.

Caperucita Roja tiró la aldaba y la puerta se abrió. Viéndola entrar, el lobo le dijo, mientras se escondía en la cama bajo la frazada:

—Deja la torta y el tarrito de mantequilla en la repisa y ven a acostarte conmigo.

Caperucita Roja se desviste y se mete a la cama y quedó muy asombrada al ver la forma de su abuela en camisa de dormir. Ella le dijo:

—Abuela, ¡qué brazos tan grandes tienes!

—Es para abrazarte mejor, hija mía.

—Abuela, ¡qué piernas tan grandes tiene!

—Es para correr mejor, hija mía.

—Abuela, ¡qué orejas tan grandes tiene!

—Es para oír mejor, hija mía.

—Abuela, ¡que ojos tan grandes tiene!

—Es para ver mejor, hija mía.

—Abuela, ¡qué dientes tan grandes tiene!

—¡Para comerte mejor!

Y diciendo estas palabras, este lobo malo se abalanzó sobre Caperucita Roja y se la comió.

***


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Um vírus ainda não catalogado

Mais aniquilador que ebola ou Aids é este vírus chamado... jeitinho brasileiro. Ele - há mais de quinhentos anos - vem contaminando milhares de pessoas, as quais, inexplicavelmente, procuram (super)desenvolvê-lo. Ao fim de análises, conclui-se que essa praga ataca diretamente o caráter da nação tupiniquim, gerando diagnósticos alarmantes.

A classe social dos infectados não interfere no avanço fuminante do jeitinho brasileiro. Observa-se que tanto o pobre quanto o rico apresentam os sintomas básicos da virose: corruptibilidade fácil, desgosto por conduta igualitária (ausência de zelo pelo próximo) e incapacidade de admitir ou consertar erros. Caso se arrisque, por exemplo, uma sorologia social, outra reação (nada adversa) se manifesta em palavras esparsas como "Isso num é da sua conta" ou "O importante é que EU tô numa boa".

No sistema educacional, o vírus ataca com sua pior mutação. Mentiras governamentais - ancoradas em comerciais televisivos - tentam esconder o estado terminal em que os pacientes se encontram. Trata-se de professores sem engajamento geral; alunos que desconhecem o vocábulo dedicação; pais relapsos com a educação dos filhos. Essas sequelas do jeitinho brasileiro aparentam não ter cura em meio a enfermos que mal conseguem planejar a própria vida.

A descrição dos efeitos que a virose provoca no trânsito também aterrorizam. Alucinações são percebidas em quem, por exemplo, estaciona na vaga de idoso mas nem sequer chegou aos trinta anos! Após serem alertados do problema, no entanto, os achacados (ah, jeitinho brasileiro...) costumam balbuciar locuções sem sentido, como "É só um minutinho". Há, ainda, doentes agressivos no momento da instabilidade mental - famosa contrarreação.

Outro sintoma perigoso que o jeitinho brasileiro exibe é o jogar a culpa para o próximo, que estava correto. Nesse caso, o contaminado reclama, por exemplo, do colega de trabalho que cumpre rigorosamente os horários da empresa. Em alguns casos, o doente justifica o fato de não pagar dívidas porque "Ninguém paga mesmo!" (perturbação mental clara). Ah!, o paciente que durante meses lê notícias acerca de políticos corruptos, mas continua votando neles, também demonstra sofrer do vírus verde-amarelo.

Comprovadamente, pois, o jeitinho brasileiro caracteriza-se como epidemia. A história do Brasil apresenta descrições claras da origem e do modo de propagação desse mal, mas, infelizmente, nem de longe indica uma solução para seu controle. Obviamente, nem todo brasileiro está contaminado; só que uma reversão, diante de quadro clínico tão instável, parece não mais ter possibilidades - ou, quem sabe, não faz mais sentido.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Um exercício literário meu: conto.

Imagens da traição

Ao voltar do quintal, percebi que vovô, minuciosamente, recontava para mamãe os acontecimentos do passado da família. Ela ouvia-o sofrivelmente, talvez ainda abalada pelo recém sepultamento de minha avó. Ambos acabaram por afundar-se nas lembranças e esqueceram, quando saíram da sala, uma caixa de sapatos em cima do sofá. Não hesitei: corri e apanhei-a, atendendo a uma suspeita de que se trataria de um sacro escopo.

Ao abrir a caixinha, certo trauma me voltou à mente. Um conjunto de fotografias fez-me recordar a primeira festa da família de que participei (verão de 86). A parentada se divertia quase disfonicamente até que um homem soturno apareceu na porta. O cavalheiro cumprimentou homens e mulheres rapidamente, mas demorou-se significativamente na saudação à minha avó. O porquê desse cumprimento alongado imediatamente soou claro para todos da família, exceto para vovô – que devido à bebedeira, ou simplesmente por ingenuidade, só reconheceu a conotação daquela imediata figura masculina ao ouvir dos lábios da esposa:

- Estou indo embora com esse homem!

As próximas fotografias… Ah!, em cada uma se encerravam pedaços diferentes da tristeza de vovô. Via-se, por exemplo, um tio que, se a memória não me trai, argumentava meia dúzia de palavras esvoaçantes. Em outra foto, angustiava o desespero da minha mãe ao perceber que a família, a partir daquele instante, desestruturar-se-ia.

Houve até quem defendesse a atitude da minha avó. Vejo, em um negativo amassado, um tio criticando vovô por causa da choradeira – alegava que se tratava de mau exemplo para os mais novos. Em um retrato borrado, irritou-me o cinismo de duas tias, solteiras, que se sussurravam:

- Papai foi muito manso para não perceber…
- No fundo, ele merece!

Mas só havia uma culpada pela desestruturação da família: minha avó. Aliás, chamá-la de "avó" era uma vingança: eu fizera questão de, e instantes, esquecer seu nome. E continuei odiando-a mesmo quando, cinco meses subsequentes à tragédia, ela voltou para casa (fora abandonada pelo amante). Vovô, mergulhado na eterna paixão, recebeu sorridente a companheira. Uma das fotos constantes na caixa de sapato era exatamente a do dia em que ela retornara - sorriso cínico escondido no batom- ao lado de um vovô radiante.

Necessário informar: na caixinha sagrada, existem pelo menos mais cinco fotos de “voltas” da minha avó.

Por isso, naquele dia em que consegui descobrir o que havia dentro da caixa de sapatos de vovô, não derramei nem sequer uma lágrima. No enterro da minha avó, duas horas antes de eu abandonar o quintal, gargalhei em vez de chorar: outra forma de desforra. E enquanto atentava para as demais fotos presentes na caixa de sapato de vovô, sentenciei austeramente: morta, minha avó não incomodaria mais.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A melhor banda: 11 de janeiro de 1985.

Devido a uma greve ocorrida em 1984 no curso de arquitetura da UFRGS, as aulas nessa instituição se estenderam até o mês de janeiro de 1985. Por conta disso, alguns festivais foram realizados pela universidade, a fim de amenizar a situação. Na onda desses eventos, Humberto Gessinger - guitarra e vocais - uniu-se ao baterista Carlos Maltz, ao baixista Marcelo Pitz e ao também guitarrista Carlos Stein e montaram uma banda para única apresentação. O nome do grupo, Engenheiros do Hawaii, foi uma maneira de mangar dos "rivais" das engenharias.

Obviamente, as apresentações se multiplicaram em palcos de Porto Alegre e rapidamente atingiram o cenário nacional. Algumas mudanças de integrantes ocorreram (Carlos Stein, por exemplo, acabou grupo Nenhum de Nós) até que se chegasse à formação clássica da banda: Humberto Gessinger no baixo e vocal; Augusto Lickz na guitarra; Carlos Maltz na bateria. Esse trio consagraria, entre 1987 e 1996, a qualidade musical da banda gaúcha.

Todavia, após um bocado de álbuns juntos, o trio começou a separar-se. Lickz foi o primeiro a debandar e, de quebra, brigou judicialmente pelo nome Engenheiros do Hawaii. Graças ao bom senso jurídico, perdeu a disputa para Gessinger e Maltz. Este, por sua vez, também acabou por deixar os EngHaw, mas de maneira mais amigável. Tanto é que participou da gravação de várias músicas lançadas após sua saída do conjunto.

Gessinger permaneceu até o álbum "Novos Horizontes" (2007) como o único integrante original dos EngHaw. Após a turnê desse disco, o líder da banda anunciou que haveria uma pausa nas atividades. O motivo é que Gessinger, ao lado de Duca Leindecker (Cidadão Quem), passou a dedicar-se ao duo Pouca Vogal. Há rumores, entretanto, de que os Engenheiros do Hawaii poderão voltar para uma turnê de aniversário - só não se sabe de quantos anos.

Independente da formação, do primeiro ao último álbum, a banda sempre gravou músicas que se tornaram verdadeiros hinos, como "Toda forma de poder" (1º disco), "Infinita highway" e "Refrão de bolero" (2º disco), "A promessa" (9º disco) ou "Vertical" (último disco). Engenheiros do Hawaii, para os velhos ou novos fãs, sempre será lembrada como a banda mais fiel ao que se propôs compor para o rock nacional.

***
- Site oficial:
 www.engenheirosdohawaii.com.br
- Livro Pra ser sincero
 http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=5088689&sparc=google&gclid=CL-utcTEsqYCFchl7Aode2AGn

domingo, 24 de outubro de 2010

Osso duro de roer

Sinto-me incapaz de captar todos os elementos (tridimensionais) da arte cinematográfica. Mesmo assim, arrisco algumas críticas, quase sempre encorajadas pela subjetividade, acerca daquilo a que assisti. Rotineiramente - e isto não afeta diretor algum, sei bem -, não sou bonzinho em minhas impressões; hoje, entretanto, o ponto-de-vista é afirmativo.

Vi o tão comentado Tropa de Elite 2 (TE2). De fato, a continuação da série é melhor que a primeira parte. Sem prender-me aos aspectos intrínsecos à "arte pela arte", a crítica social presente em TE2 apresentou algo pela mídia obscurecido: sugeriu-se que tráfico, propina e milícias podem estar associados ao governo. Essa sugestão, metaforizada, seria passível inclusive de comprovação.

Em conversas com amigos, é comum chegarmos a idênticas conclusões. Fernandinho Beira-Mar, por exemplo, deve ter caído porque mexera com "gente grande". Esse pessoal "gente-grande", então, não poderia estar na Assembleia, na Câmara, no Senado? Não se mencionam nomes reais, daí a metaforização, porque o problema é o sistema político em si. Sai governador, entra governador... E as ações calhordas tendem a continuar.

Muitos brasileiros encenam uma democracia que permite tudo - menos a honestidade. É histórica a assertiva de que em terras tupiniquins se aceita a corrupção passivamente. Cada uma a seu modo, as legítimas impressões sociais são constantemente mal interpretadas. Como comprovação disso, leia-se "somente" sobre o resultado das últimas eleições, deixe-me ver..., no Paraná e em São Paulo: talvez, caiba em uma só mão o número de deputados honestos.

No filme de José Padilha, essa imobilidade social fica extremamente explícita. O deputado Fraga ou o subsecretário Nascimento representam dois extremos que lutam pela mesma melhoria. Ao final, direitos humanos e BOPE seriam as formas de se destruírem males sistemáticos como tráfico, corrupção, ignorância. Mas fica difícil encarar o sistema problemático quando mídia e governo se unem em prol da futilidade. O povo, por sua vez, prefere almoços de épocas de campanha à tentativa de mudanças, escolhe pagar propina e, junto, o pato.

A gente não precisa só de ONG ou de boa vontade social (mensagem que Tropa de Elite 1 já apresentava). É imprescindível, ex tempore, uma rede de atitudes que siga o exemplo viril de policiais ainda dignos ou de políticos "ficha-limpa". Precisamos de homens públicos sérios, de mídia não-sensacionalista. Viver à sombra de candidatos redundantes, em todos os sentidos da palavra, simplesmente não mais convém. Aliás, não deveriam convir, também, as demais aceitações do elemento bizarro que ocorrem no Brasil.

Tropa de Elite 2, ao fim, ainda consegue repassar uma mensagem de esperança: "cacete" na estrutura política nacional! Se não houve resultados positivos com o partido do bico grande, que ele volte para a floresta. Uma vez que a estrela tenha parado de brilhar, que se elejam outros candidatos a astro. O indivíduo nas cadeiras políticas é o de menos; devemos nos preocupar com o componente abstrato. Se for necessário, que os direitos humanos protejam os homens honestos, que "os caveiras" metam a mão na cara dos corruptos.

E que se exclua, do cenário político nacional, a maldita palavra "renovação". Renovar a máfia, a corrupção? Sejamos, conforme se configura TE2, menos justus (se me permitem o trocadilho): que haja, sim, uma revolução.