sexta-feira, 20 de junho de 2008

Um texto de outrem.

Os “sem-noção” do transporte coletivo (Parte 1)
(Fernando Martins)

O Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba lançou há um mês uma campanha para que os passageiros curitibanos sejam mais educados. Reportagem do domingo desta Gazeta do Povo mostrou que os resultados têm sido animadores: os usuários do sistema, aos poucos, estão mais corteses uns com os outros. Isso é animador. Quem sabe alguém não pense em ampliar o foco da campanha também para os “sem-noção” do transporte coletivo. Diferentemente dos sem-educação, que geralmente sabem o que estão fazendo, os “sem-noção” – como o próprio nome diz – simplesmente não têm idéia de que seu comportamento atrapalha os outros passageiros. Veja alguns dos principais espécimes de “sem-noção” que habitam nossos ônibus:

- O apaixonado pela porta 3: esse peculiar tipo de usuário nutre uma paixão platônica pela porta 3 dos biarticulados – aquela pela qual todos entram. Ao adentrar no ônibus, o apaixonado, em vez de procurar um lugar nas extremidades do veículo, pára na porta 3. Ela deve ser tão sedutora que atrai multidões de apaixonados, que se espremem só para ficar perto dela enquanto nos cantos do ônibus há espaço de sobra. Azar daqueles que querem entrar e não conseguem.

- O boneco de açúcar: esse ser é muito sensível. Dissolve-se ao menor contato com água. Quando começa a chover – mesmo a mais leve garoa – o boneco logo fecha as janelas do ônibus, transformando o coletivo em uma sauna. É um espécime especialmente nocivo na hora do rush e no verão.

- A tia da bolsa: essa simpática senhora sempre aparece quando você mais está com pressa. Vem vindo o ônibus, você está atrasado, corre para entrar no tubo e pegar a condução quando... aparece a tia da bolsa, bem à sua frente, para pagar o cobrador. O problema é que a tia é muito esquecida. Ela sempre se esquece de pegar o dinheiro da passagem antes de sair de casa. E resolve procurá-lo dentro de sua imensa bolsa enquanto o ônibus vem chegando e a fila vai aumentando. Ela tira da bolsa celular, batom... e o ônibus chegando. Ela tira lenço de papel, óculos escuros, escova de cabelo... mas nada do dinheiro. E o ônibus chegando. Por vezes ele passa e a tia ainda não achou o dinheiro.

- O touro-sentado: esse tipo é o cara-pálida que confunde degrau com banco e gosta de sentar na escada de descida do ônibus, atrapalhando a saída dos passageiros. Normalmente faz parte da tribo dos adolescentes. Só mesmo alguém com menos de 18 anos para se sentar no chão.

Na semana que vem, conheça outros espécimes dos “sem-noção” que circulam no transporte coletivo.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Namorar: verbo transitivo direto.

Pessoas mal-amadas costumam detestar o Dia dos namorados. Os argumentos projetam-se nos chavões "data capitalista" a "dia dos namorados é todo dia". Particularmente, prefiro encerrar a introdução para evitar xingamentos a esses tipos.

Paixão: importante. Nela, razão para um telefonema de madrugada ou para o gasto imoderado no restaurante. Gargalhadas sadias: do chocolate no dente; do tropeço no cachorro; do carro a álcool que teima em não funcionar...

Criou-se o dia para troca de presentes; não se negue a prática! Esquisito quem não sorri quando ganha a jaqueta almejada. Ao presenteado, a expectativa de receber o que implicitamente pediu; ao presenteador - será que o cd importado e o livro raro vão agradar? (Escusado escrever que jogo-de-panela e meia denotam péssimas escolhas para 12 de junho.)

Todo mundo deve namorar e dar presente. Os casais às bodas-de-ouro ainda namoram; as rosas, no processo do pólen, também; crianças se afeiçoam na bolacha recheada que trocam entre si - verbo mágico esse tal namorar! Até a vida, abstrata demais, namora as pessoas - menos as mal-amadas, que não entendem quando alguém diz "tô a fim de você" de forma subentendida.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Paixão adolescente

Enquanto crescemos, gostos chegam, passam e, às vezes, voltam. Há, também, os que simplesmente nunca se apagam - e eu tenho um desses.

Ontem, a turnê nova. Gessinger já comentou que"Novos Horizontes" possivelmente seja o último trabalho da banda. Logicamente, não perdi o concerto dos Engenheiros do Hawaii. O resultado, após R$ 123,00 de ingresso, não se resume à palavra maravilhoso. Fileira 04: rock-anos-80 em pleno século XXI!

Nada de empurra-empurra, cotoveladas, bêbados chatos. Quiçá, novo rabugento: perdi a paciência com aglomerações em casa (de show?) mal ventilada. No Teatro Positivo, encontrei acústica perfeita, um cenário encantador, espaço para pular. Ouvi e cantei seguramente, entre "O papa é pop" e "Ando só", "No meio de tudo você", "3ª do plural", "Faz de conta"... Old and new!

(HG: incomparável letrista; melodias pinkfloydianas; sintético; metafórico; novamente no baixo; dono indiscutível da banda; infelizmente, gremista.)

Algumas pessoas não esquecem namoradas passadas. Outras, algum jogo de futebol. A minha paixão cinge a banda gaúcha. Uma grande vantagem: minha namorada não sente ciúmes, não se importa: até apóia: paixão é diferente de amor.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O elemento o mais urbano possível!

Catalisador de gastrite, enxaqueca, crise de choro: estresse. Presente nas ruas, nos lares, nos seres. O mantra flui, mas forças irritantes insistem na quebra da paz. Tempos modernos.

A empresa de telefonia aliada ao provedor incompetente. Contas inexistentes, formato PABX, atendentes mal-educadas, promessas em gerúndio. O Procon não dispensa a esquisita relação entre burocracia gratuita e competência. Xerox pra cá, reconhecimento de firma pra lá; o cidadão? parado? muito brabo?

Família e trabalho misturados representam confusão. Discussões porque a filha leva amigos ao serviço; brigas porque o pai não concorda com o cálculo da mãe; chateações porque a tia quer meter-se na administração do negócio. Para completar, os observadores - que alvitram somente em momentos intempestivos.

A faculdade a seqüência estonteante de trabalhos O melhor sistema de transporte do Brasil As improfícuas formalizações laborais O serviço bancário Rinite Poça d'água O cachorro que escapuliu e não voltou O café esfriou A blusa molhada (ai que frio!) O computador que trava à hora de digitar Mais estesse... Estresse... Estresse...

Dos mínimos aos máximos, Hans Selye - se vivo - concluiria "My God!" para a irritação que ajudou a formalizar.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Livre concorrência(?)

"Desconsideremos" o Renmin Dahuitagn: são dez mil lugares. No Brasil, ele representaria um absurdo cultural, econômico e político. Todavia, temos teatros de que podemos, sim!, orgulhosamente tratar.

O Teatro de Manaus é uma sala centenária com capacidade para 701 pessoas. Construído à época do Ciclo da Borracha, traz arquitetura clássica: ogivas altas e teto abobadado. Em cada parede, homenagem a importantes nomes da arte (Mozart, Carlos Gomes, Ésquilo, Aristóphane...). Abrange a Companhia de Dança, o Coral e a Orquestra Filarmônica do Amazonas.

Em São Paulo, saliência para o Teatro Municipal. Casa da Semana da Arte Moderna (1922), seu aspecto civil segue a Opéra national de Paris. Foi inaugurado em 1911 com uma sessão de "Hamlet" - ópera de Ambroise Thomas. Comporta de 1500 a 1600 espectadores e, dentre seus projetos, destaca-se a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo.

Uma contagem interessante está nos Pampas. Dos trinta auditórios nacionais com capacidade superior a mil poltronas, sete são gaúchos: Auditório Araújo Viana; Teatro do SESI; Teatro PUC; Teatro da UFRS; Teatro Guarani; Teatro da OSPA; Teatro do Bourbon Country. Em todos, programação exemplar. Curiosidade: antes da última reforma por que passou, o Auditório Araújo Viana possuía capacidade para três mil pessoas!

... espaços curitibanos? Famosa pelo seu Festival de Teatro, Curitiba apresenta duas das mais completas salas do Brasil: o poderoso Guaíra - construído em arquitetura moderna, cuja sala principal (Bento Munhoz da Rocha, o "Guairão") foi fundada em 1974 e comporta 2173 pessoas; o Teatro Positivo - edificado em traços os quais remontam ao maravilhoso Teatro Epidaurus (Grécia, séc. IV a.C.), possui 2400 lugares e é o maior teatro do Paraná. Essa "concorrência de gigantes" será muito cultural para a capital paranaense.

Faltam linhas para o Teatro Guararapes, o Teatro Castro Alves, o Teatro Nacional Claudio Santoro... Outras importantes salas que embelezam o cenário scenicu do Brasil. Individualmente, estamos longe do Renmin Dahuitagn; juntos, entretanto, contabilizamos bem mais que um-bilhão-e-alguns-milhões de chineses: brasileiro sempre deve ser multiplicado por dez...

domingo, 6 de abril de 2008

Em que se trata do que deveria persistir

Ao redor do fogo, cerveja e carne assada. Um tio conta o passado do seu irmão mais velho. Este, embora negue o relato, sabe que os filhos aceitam os fatos. Orgulho geral: antigamente, era digno apanhar por causa da malandragem. E todos os homens riem ao redor da churrasqueira.

Às mulheres, na cozinha, a maionese. Entre si, alguma intimidade do dia-a-dia. Cada tia trouxe uma sobremesa. Aliás, muita história boa ocorre nesse transporte. Incrível: uma das gelatinas caiu no colo do motorista; o cachorro pulou no bolo de fubá; um filho travesso furou o pudim com o dedo. E todas as mulheres riem na cozinha.

O almoço. Ao fundo de "Passe o macarrão pra cá!" ou "Maldito! Você derrubou coca na minha batata!!!", alguma do Teixeirinha. O tio fanfarrão senta a mão nas, digamos, ancas da esposa -a qual fora buscar mais salada. Ela ruboriza, mas demonstra empáfia: "Meu homem!". E todos riem em volta da mesa.

Mas a era se estica. Hoje, tapas de dez homens em uma só guria. Em vez de "Meu homem", ela pensa "Quantos machos de uma só vez?". Não se deseja casar, ter uma vida digna, assar carne ou preparar maionese. O almoço de família foi trocado: baladas são mais espirituosas. Aniversário? Até meia-noite, R$ 30,00 de entrada e R$ 45,00 de consumação. (R$ 5,00 cada lata de cerveja quente.

O passado não pode ser revelado aos filhos. Máscaras ao cigarro precoce, às agressões gratuitas, ao ensino médio incompleto por causa da gravidez precoce...) E todos riem sem porquês.

Mudança pra pior! Comentam-se, já, casamentos em casa noturna. Por "aquele" precinho, todos numa pista de som. Literariamente, isso poderia chamar-se naturalismo. E quão incompreensível, ao fim da festa, a conclusão "por que não ganhei presentes? por que nem todo mundo está feliz?". Vidas vazias, totalmente secas.

Insensível quimera de regressar à idade das bestas.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Possibilidade

NO Evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago humaniza Jesus. Dores e líbido cercam o Messias. Obviamente, os cristãos criticaram a obra. Este post também será alvo de censuras.

O politeísmo não acabou. Houve reformulações. A crença católica confirma: santos no lugar dos deuses gregos. E assim como estes, aqueles possuem funções específicas. Um para casamento; outro para chuva; cada país com o seu. Atena interveio no destino de Odisseu; os homens atuais (solitários, em alguns momentos, igual ao Ulisses) crêem nos santos para conseguir amor ou colheita.

A Santíssima Trindade é outro sinal de não-monoteísmo. Entidades diferentes? Circunlóquio, três: crenças diversas. Deus, Espírito Santo e Jesus comportam "etapas" diferentes; Posseidon, Hades e Zeus formavam divisão "sintática". Semelhanças entre pagãos e cristãos, de novo: duas trindades divinas?

Deus, assim como de Zeus se sabe, é inquestionável. Conseguiram essa classificação sob imposições. Zeus se sobressaía perante seus próprios comandados; Deus, à cobiça do demônio. Há cultos, músicas e festas para os dois. O vinho após as batalhas gregas; o sangue no primeiro domingo do mês. As odes após as batalhas gregas; os testemunhos cristãos subseqüentes a uma benção. Tudo em público, claro.

O post não visou à verdade. Todavia, não custa repensar certas estruturas. Cada ser humano deve ter suas crenças. Acreditar é importante - seja no metafísico, na liberdade, no não... O que não pode é pôr fé na ignorância. Não, não.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Isto sim que é disputa!

Peço desculpas às demais torcidas: Internacional e Grêmio têm a maior rivalidade regional do futebol tupiniquim. Nos pampas, time é parte do corpo. Pai e filho com chimarrão, picanha; cinco sentidos focados nas jogadas.

Desculpas, agora, aos gremistas: a história dos grenais prova a superioridade colorada. Dos 369 encontros, o Inter possui 137 vitórias. São exatos 19 (dezenove) triunfos a mais que o rival tricolor. Os gols atingiram o número 1015 - com 524 do Internacional e 491 do Grêmio.

Algumas curiosidades envolvem os grenais. Dos 10 mais importantes, 07 terminaram com vitória colorada. Primeiro confronto: Grêmio 10 X 0 Internacional. Todavia, os demais jogos revertem o tropeço alvi-rubro. Em 1954, na Inauguração do Olímpico, o Inter presenteou o Grêmio com uma vitória de 6 X 2. O grenal do século, em 1988, terminou Saci 2 X 1 Mosqueteiro (de virada; Inter com um a menos). O clássico do gol mil encerrou grandiosamente; o primeiro clássico internacional, em 2004, também (perdoem o trocadilho!).

A maior goleada em campeonatos brasileiros foi do Inter (5 X 2, 1997). Com relação ao público, o recorde sempre se situou no Beiro Rio. Em 1989, eram 78 mil pessoas no jogo Internacional 2 X 1 Grêmio (bilheteria recorde). O Inter conquistou todos os títulos que o Grêmio já conseguiu. Muitos deles, com brilho demasiado superior: campeão do Campeonato Brasileiro invicto, em 1979; octocampeão gaúcho, de 1969 a 1976.

Enfim, dados. A superioridade colorada não atrapalha o confronto. Como escrevi, grenal é o maior clássico do Brasil. Inter e Grêmio somam 18 títulos em torneios nacionalmente eminentes. Mas como poetizou Nélson Silva, no "Celeiro de Ases", vibra o Brasil inteiro com o clube do povo do Rio Grande do Sul. No coração, um só: dá-lhe Inter!

Obs.: "Celeiro de ases": http://www.internacional.com.br/mp3/hino_celeirodeases_original.wav!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Que complicado!

O que eu sinto a respeito dos homens é estranho. Nenhum de Nós, faixa "Extraño". Refleti acerca desse trecho.

Leitores não criam seguidores; restringem-se a linhas para outros chatos. Filósofos falidos se igualam aos líderes políticos: falam, falam, falam... E gerúndio. Pensadores pregam a educação popular mas escrevem em linguagem demasiado expropriada! Estudiosos esquisitos visam à exposição gratuita de conhecimentos.

Misantropos enquanto ganham dinheiro. Jovens compram pick-up para não carregar mais que um. Fumantes desprovidos de cigarros coletivos. Filhos se garantem com as terras dos pais. A divisão de cargos via influência. A literatura chorosa às margens de um rio. O boleiro fanático reclama do preço do livro.

Idosos de 20 anos não cedem lugar a recém-mães. Homens são fiéis à mesa da sogra. Pais compensam com computador, video-game e McDonald. Namorados-de-sexo zombam de bodas de ouro. Alienados preferem sinestesia ao real perfume de mulher. Assassinos revezam no plantão.

Darwin significa evolução a quê? Nelsinhos estupram pela prazer da imposição. Padres vencem a prova de aliciamento. Promíscuas simbolizam a sensualidade universal. Professores oferecem a outra face a alunos. Pessoas desconhecem o poder da crença.

O que eu penso a respeito de tudo é tão estranho. O distúrbio soa comum, mas perder a fé não se torna estranho.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Quem será o sambista?

Uma amiga anunciou mudança. Para surpresa, Curitiba como destino. Antes do embarque, as típicas perguntas. Acerca do clima, comentei que a tendência ao frio é desafiadora. Sobre a praia, citei os 934m acima da linha do mar. Do questionamento sobre o desfile de carnaval, ri.

Uma carioca não encontrará Escolas de Samba decentes fora da Cidade Maravilhosa. Se nem a Vai-Vai (das mais antigas do Brasil) consegue elevar o status de São Paulo, imagine se a Mocidade Azul curitibana... Três agremiações, dois carros alegóricos, rainhas de bateria propensas a pelancas: eis o desfile da terra do pinhão. Seriedade em bizarrices?

Não que o desfile do Rio continue puro. Escolas de Samba, lá, também mudaram. No primórdio, quando Mangueira - a mais ilustre - e Portela - recordista de títulos - tiveram a rápida concorrência da Deixa Falar - primeira Escola de samba -, as disputas costumavam ser sadias. Competição musical. Havia o pudor da festa européia com a ginga verde-amarela. Os idealizadores se respeitavam exemplarmente. Ismael Silva (Deixa Falar) e Cartola (Mangueira) eram malandros, bandidos não.

Da exaltação dos costumes tupiniquins caímos no produto de mercado. O Governo Federal liberou, este ano, R$ 12 milhões para cada Escola do Rio. Procurou-se "aumentar os investimentos no setor de turismo". Que balela! Desconfio desses "investimentos" assim como desconfiei dos grampos telefônicos na sede da Beija-Flor. Definitivamente, o lado cultural-carnavalesco se perdeu. A marchinha existencialista cedeu lugar à bunda. A empolgação da platéia quedou-se perante o poder da mídia. Sem extensões à promiscuidade.

Devo repensar meu conceito de desfile. Todas as Escolas de Samba estão corrompidas - por incapacidade ou conduta anti-ética. Braguinha, Saturnino Gonçalves, Paulo da Portela: ilustres falecidos. Os substitutos aparecem em proporção desigual, gradativamente modificados. Quando não houver mais gente boa, tenho medo das alegorias que surgirão nos sambódramos. O Carnaval, em Curitiba ou no Rio, termina na mesma impressão: vergonha.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A idade da razão

No último domingo, a menina - de nove anos - com uma boneca. Cuidava atenciosamente da filhinha. Manta, musiquinha e mamadeira. Cena rara: a guria estuda no Santa Maria.

A minha geração é transitiva direta. Jovens! Não vimos Tom e Vinicius em um show regado a uísque. Não conseguimos assistir a um jogo do Pelé. Irrompemos na década subseqüente à morte da Clarisse. Olhamos assustados pra galera do impeachment. Choramos no 1º de maio de 1994. Ansiamos por um banho de lama.

Empinamos raia. Corremos descalços no futebol. Brincamos de esconde-esconde, Naquele matão!, com roupa preta que dificulta o trabalho de quem contou. No colégio, um beijinho sem saliva. Pedimos um brinquedo de presente de Natal. Bebemos escondido. Fugimos da igreja. Ritualizamos a primeira experiência sexual. Escrevemos em ambígua conjugação verbal (presente e passado ao mesmo tempo): os fatos se misturam no tempo.

A nova geração, aos quatro anos, já imerge estuprada. No capítulo "A tentativa mais importante" de O homem sem qualidades, Robert Musil discorreu sobre a revolta que os jovens apresentam em relação aos velhos. Segundo ele, todo espírito de mudança se perde quando aqueles jovens se tornam os pais. Velhos tempos de rock and roll! Os atuais futuros jovens não têm inteligência pra alterações: educação by Marinho, Abravanel e Macedo. O Castelo Rá-Tim-Bum foi trocado por vagabundas. Os jogos humanos perderam sentido perante a desgraçada pista-de-tampinha virtual.

Esporte é o gol do personagem de 64 bits. Não estudam porque a UNIESQUINA abrange quem nunca leu Machado de Assis. O rádio reproduz KLB 22, Nirvana ou Babado não sei o quê. Não entendem política. Gostam de ganhar um salário mínimo. Vestem-se no estilo Power Rangers, todos marcados com 55. Não aprenderam o verbo criticar. O sexo é uma bala na boca de crianças - literalmente, às vezes. Inversões perigosas, nas quais a sabedoria cede lugar à mediocridade.

Entretanto, uma menina ainda cuida da boneca. Patinha feia dentre as galinhas que desejam estrelar a Caras de setembro. Cantou Humberto Gessinger: eu me sinto tão pequeno nessa terra de gigantes. Nós! Que a garotinha escreva, daqui 11 anos, um texto que louve a nova geração. Voltarão, bolas e bonecas, para os quartos infantis?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

2008!

Acabou o período festivo. Natal: família, com um peru bem gordinho. Virada de ano: amigos, de preferência na praia. Óbvio que alguns encostos impedem que muitas pessoas consigam essa idealização. Todavia, não se pode desculpar uma ausência com lugares-comuns pré-positivos ou pré-negativos, tais como "ano que vem tudo será diferente" ou "que época de ano mais sem graça".

Pra quem não é cristão e se porta coerentemente, o lado religioso do Natal se perde. Mas seres (bem) providos de inteligência não dispensam presentes e, no dia 25 de dezembro, umas das alegrias é essa (não é necessária a crença divina pra pegar a onda, e também não é mister o preconceito). Outra felicitação gira em torno das várias pessoas queridas e amadas reunidas em torno da mesa. Rir dos tios bêbados; o medo da revelação do amigo-oculto e da lembrança; a barriga em volume incrível: peru abençoado!

Na virada, a bebida da limpeza. Penha, Santa Catarina, com namorada e amigos. Festa! E uma recordação idiossincrática:

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Chega de confiar nos dias, nos terceiros, no papel! Que tal nós mesmos batalharmos por um ano congratulante?! Estudo, trabalho, economia, lazer, pintura, cálculo, literatura, música - os primeiros passos de uma caminhada rumo à alegria. Não dormir para pular ondas; na cidade, ter preguiça de levantar cedo para trabalhar: estranha vontade de ser feliz! Quem muito esbanja não pode reclamar de ficar em casa no dia 31.

Sempre desejo o contentamento geral. Mas muita gente insiste no posto de arrogância, na necessidade de humilhar, no comportamento desmoralizador, na tentativa de rebaixar o festerê. Não sou nem quero ser uma entidade santa. Pelo contrário, sagrada é a cervejinha de sexta-feira. Já que ao meu lado, a começar pela minha Baixinha, só existe gente boa - chega de preocupações universais. Família, Amor e amigos me emprestam um tempo incrível: Feliz 2008 pra vocês! E pra quem continua com a simpatia gratuita, um bom conselho: evite dormir de calça jeans...


Obs.: quem quiser ouvir o poema "Receira de Ano Novo", do Drummund, declamado pela Odete Lara... Peça!

domingo, 16 de dezembro de 2007

As aparências enganam

Quanta ilusão em torno do Natal do Palácio Avenida. Quem conhece o Ballet Bolshoi se desola com a tosca base que as crianças do coral HSBC recebem: um mês de fama, onze de provações - e essa oscilação subseqüencia o descompromisso entre Brasil e decência.

O Teatro Bolshoi é uma instituição fundada em 1773, na Rússia, pelo príncipe Peter Urussov. Por lá, promove o ingresso de criança "pobre" na melhor dança do mundo. O projeto sofreu casualidades (incêndio, trocas administrativas) mas se manteve, ao longo dos séculos, fiel ao propósito inicial. Tão fiel que em 1998 deslocou um pouco dessa grandeza para terras tupiniquins.

Em 2007, formou-se a primeira turma de bailarinos profissionais do Ballet Bolshoi. Os jovens tiveram, ao longo de oito anos, aulas de educação básica, língua estrangeira, história da arte, teoria e prática musical, expressão corporal, dança clássica, dança popular, interpretação, maquiagem; assistência médica e odontológica; bolsa-auxílio; roupas e viagens. Cada passo era orientado por uma equipe "de ponta", formada principalmente por brasileiros e russos. Nomes como Pavel Kazarian, Galina Anatolievna, Agrippina Vaganova, Henrique Beling e o grande Vladimir Vasiliev garantiram a competência da primeira filial do Teatro Bolshoi fora da Rússia.

Uma opção para jovens desfavorecidos socialmente (95% do total de alunos da instituição) conseguirem materializar um sonho. Exemplo: em 2006, numa apresentação na sede do Bolshoi, em Moscou, a bailarina Mariana Gomes se tornou a primeira brasileira a ingressar na companhia russa. Recompensa pelas mais de cinco horas diárias de treinos e aplicações.

Percepção que o Ballet Bolshoi gera: ainda faz sentido investir em cultura. Ainda. Criações que liguem humanamente os segmentos da inteligência - educação, arte, esporte, trabalho... - são bem-vindas. Contudo, sabemos das dificuldades nacionais: dificuldade de investir no culto, de aceitar o que é trabalhosamente doloroso, de ser honesto. Há métodos mais práticos de atingir-se o sucesso: o roubo, a cola, meia-dúzia de crianças que, após um mês de cantoria em janelas, terão duas "oportunidades" musicais possíveis: banda de rock no estilo CPM 22 ou Capital Inicial; prosti-bandas no estilo Axé Blond ou Calipso.

- Até quando os isolados conseguirão ser exemplos?

- Não sei, não sei...

sábado, 8 de dezembro de 2007

Todos juntos, vamos...

Um bar é sinônimo de união. Para justificar, amplio não-paradoxalmente a "noção temporal" de Santo Agostinho. O autor dos Solilóquios escreveu a permanência de registros dentro de um único tempo: o presente. Neste, incluem-se resgates, verificações e antecipações que implicam as demais divisões cronológicas: memória: presente das coisas passadas; visão: presente das coisas presentes; expectativa: presente das coisas futuras. Exatamente o que acontece numa roda de beberrões.

Ontem - com algum povo da faculdade - praticamente dois engradados de cerveja. O presente da confraternização se reproduz na minha memória. Recupero informações preciosíssimas. No boteco: fala-se mal de pessoas chatas; comenta-se sobre o que há de bom e o que há de desgraçado na UFPR; canta-se parabéns para os 21 anos do amigo; combina-se a despedida que ocorrerá na próxima quinta-feira; anseia-se pela aparição de quem não pôde ir. Como se dá toda essa aglutinação? Com os ganchos que só o presente produz, oras!

O que importa é beber e sorrir. Quem não lembra a piada que o pai desastrosamente contou? Quem consegue derramar cerveja cinco vezes seguidas? Quem canta vitória antes da primeira rodada de cartas? Resposta: todos ao redor da mesinha. As seqüências se desenvolvem no presente que depois se torna comparação entre as confraternizações que separam memória (ou seja, que já maravilhosamente ocorreram) e expectativa (esperança de haver uma "palhinha" antes da próxima reunião).

Sei que soou despragmática a justificativa. Não faz mal. Pra quem está fora do bar, toda aquela algazarra também não convém. A inveja - Ah, eles têm amigos! Ah, eles tomam Bohemia! Ah, eles não precisam agüentar a mulher reclamona! - sufoca melancolicamente. Um recado para os pseudo-ortodoxos: existe mundo fora da fase cristã de Aurelius Augustinus. No modo etílico, qualquer assunto se mistura.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Pra entendidos.

A alegria futebolística possui várias faces. Ontem, quando o sr. Alício Pena Júnior apitou o fim do jogo em Porto Alegre, pude comemorar: o Corinthians estava rebaixado à Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. Não me causou tristeza a derrota, em Goiás, do Inter. Pelo contrário, o tropeço do meu colorado era indispensável para a desgraça corinthiana.

Meu contentamento consiste na denotativa queda do Timão. Muita gente surge com a incrível falsidade "Ah!, eu sou contra o vazio que o Corinthians representa na história do futebol nacional". Pra mim, o Alvi-Negro tem uma certa notoriedade. Segunda maior torcida do Brasil; quatro títulos nacionais; recordista de títulos paulistas; craques como Sócrates e Rivelino atuaram no Parque São Jorge - tudo isso reafirma a importância.

Mas alguns atributos tornaram o Corinthians um time arrogante. Conrinthianos fanáticos estão na lista dos seres mais insuportáveis que existem. A mídia criou uma aura em torno desse time a qual simplesmente não se pode aceitar. A CBF também compartilha do protecionismo: em nota no site oficial, afirmou que a confederação investigará o atraso que ocorreu no Olímpico e no Serra Dourada. No globo.com, todas as mais de vinte reportagens "de capa" eram sobre o Timão. Sensacionalismo barato: isso que me irrita! E o vice-campeonato do Santos? E a vaga na Libertadores que o Cruzeiro garantiu? E a lista das equipes classificadas pra Sul-Americana? E os outros rebaixados? A soma de todas essas torcidas supera o número de rebaixados, ops, de conrinthianos - o que torna trivial argumentos acerca de atingir o maior público. Aplaudo a união brasileira (que nunca se repetirá) pelo rebaixamento dessa equipe que, em jogadas de marketing, quer sobrepor-se ao mundo.

Segundas-feiras passaram a ser mais assinalantes. Se o vereador Valdenir Dias deseja implantar o dia do flamenguista curitibano - o primeiro dia últil da semana nacional se imortalizou automaticamente como conotação à situação do Corinthians: segunda divisão. Resta, aos jogadores, vender amendoim entre os intervalos dos jogos da Série B: gerar dinheiro até a famosa e ambígua "ajuda oculta" chegar ao Parque São Jorge.