A última conta? Há trezentos e sessenta e seis dias. E a data do aniversário assassina vários acontecimentos. Presentes, simples que sejam, apagam um bocado de dados do último ano. Exemplos.
Prendeu-se o traficante Juan Carlos Abadia. Julgaram-se - e condenaram-se - uns quarenta políticos ligados ao caso "Mensalão". Os líderes da Igreja Renascer, Estevam e Sonia Hernandes, receberam voz de prisão nos Estados Unidos. Salvatore Cacciola foi detido em Mônaco.
O Superior Tribunal eleitoral proibiu a "infedelidade partidária". Um qualquer padre e ex-interno da Febem se atritaram - suposta pedofilia. A Petrobrás descobriu novas fontes de petróleo. A "oposição" derrubou a eterna CPMF que a "situação" tencionava. Quadros de Picasso e Portinari sumiram; felizmente, reapareceram intactos.
Parte da polícia nacional se envolveu na morte de inocentes. O REUNI foi decretado, o que causou discussão social acerca do futuro das universidades públicas. Isabela, coitada, "caiu" da janela do seu apartamento. A corrida para decidir quem representaria o Partido Democrata nas eleições estadunidenses atingiu a comicidade.
Guga anunciou a aposentadoria em relação às quadras. Ricardinho deixou de ser o levantador oficial da seleção de vôlei. Marta novamente se sagrou a melhor boleira do mundo. Na China, esquisitas três medalhas de ouro tupiniquins. Houve escândalo entre famoso jogador e travestis. A seleção brasileira de futebol deixou de encantar.
Mas os presentes do aniversário continuam na mesa. Tamanha dispersão: não-freudianamente, esqueci-me de listar um monte de acontecimentos. Que Dalton Trevisan não leia este post: torço para que O maníaco do olho verde ganhe muitos prêmios.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Perfeição
O professor disserta sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
Cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudí-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O rofessor baixa a voz,
Com medo de acordá-lo.
(Carlos Drummond de Andrade)
Profissão de risco. Além do trabalho ininterrupto, o perfeccionismo atormenta um professor comprometido. A aula termina; os alunos entenderam a matéria; o docente acha que pode superar-se.
Sem macetes ou comentários desnecessários. Português: variação lingüística, teoria da comunicação, gramática, interpretação de texto, literatura... Variações dum mesmo tema. E mesmo quando o discípulo diz "Prof., você me fez leitor!", certo vazio persiste...
Um amigo: "Cara, isso é responsabilidade, é bom! Uma aula toma muito tempo!". De fato, começa antes da sala. Em pré-vestibular, a preparação aumenta - pois além de ensinar, encara-se a sensibilidade onírica do discente. Então, frase engraçada para análise sintática, crônica do Luis Fernando Verissimo para interpretação, apostas "esquisitas". E que todos aprendam.
Perguntar "Entenderam?" e ouvir "Sim!" pertence ao grupo dos prazeres máximos. Exemplo: o aluno, aparentemente dorminhoco, resolve o exercício assim que solicitado. E o vazio, aos poucos, cede ao contentamento. A perfeição se manifesta em preocupações e risos.
Um aluno dorme,
Cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudí-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O rofessor baixa a voz,
Com medo de acordá-lo.
(Carlos Drummond de Andrade)
Profissão de risco. Além do trabalho ininterrupto, o perfeccionismo atormenta um professor comprometido. A aula termina; os alunos entenderam a matéria; o docente acha que pode superar-se.
Sem macetes ou comentários desnecessários. Português: variação lingüística, teoria da comunicação, gramática, interpretação de texto, literatura... Variações dum mesmo tema. E mesmo quando o discípulo diz "Prof., você me fez leitor!", certo vazio persiste...
Um amigo: "Cara, isso é responsabilidade, é bom! Uma aula toma muito tempo!". De fato, começa antes da sala. Em pré-vestibular, a preparação aumenta - pois além de ensinar, encara-se a sensibilidade onírica do discente. Então, frase engraçada para análise sintática, crônica do Luis Fernando Verissimo para interpretação, apostas "esquisitas". E que todos aprendam.
Perguntar "Entenderam?" e ouvir "Sim!" pertence ao grupo dos prazeres máximos. Exemplo: o aluno, aparentemente dorminhoco, resolve o exercício assim que solicitado. E o vazio, aos poucos, cede ao contentamento. A perfeição se manifesta em preocupações e risos.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Em busca da música perdida
O pessoal da horda NX Zero disse que toca "rock do bem", diferentemente de cabeludos que se batem em shows e escrevem porcarias. Agressividade gratuita acompanha incapacidade: os ruinzinhos atacam os bonzinhos, pois por si só conseguem um clipe na MTV.
As "minhas" bandas não agradam à geração deprimente. Comparar o rock dos anos 60, 70 e 80 com as bandas que hoje fazem a cabeça da moçada não condiz. Impressiona-me alguém que prefira CPM 22 ao Pink Floyd, ao KISS, aos Paralamas do Sucesso. Mas...
... Analisemos. No nome, as bandas ritualizam um pacto de (não)criatividade: colocam um amontoado de letras maiúsculas; depois, inventam um significado para elas - que possui menos sentido que a própria sigla. As citadas hordas procederam assim, semelhantes a SPC e KLB. Sobre as letras...
... "Aonde eu moro, aonde eu vou / Como tudo sempre muda ao redor do sol": a primeira palavra, de acordo com a maldita gramática, escreveu-se erradamente, pois para idéia estática o uso correto é onde e não aonde. No mais, esses chavões de "tudo muda ao redor do sol" continuam bregas: você, leitor, muda quando sob o sol? Fica verde igual ao Huck ou seus cabelos caem; sua casa começa a voar?...
... "Longos foram os dias que eu fiquei a te esperar / No fundo eu já sabia, que eu não iria te encontrar...": letra reveladora. Primeiro, a teórica rima pobre - a minha cadelinha consegue sonorizar dois verbos no infinitivo ("latir" com "dormir"). Segundo, a exposição retardada: se sabia que não encontraria a dita cuja, por que aumentar o predicativo "fracassado"?...
... "Eu vou agora / Eu vou com ou sem você / Eu vou embora / Não quero mais andar em círculos". Quase um perpetuum mobile , não? "Com Raça posso até vencer / nas curvas vou ultrapassar / no limite até o fim / cada segundo que ganhei / cada suor que derramei / podem levar ao primeiro lugar / da velocidade dos nossos corações / e no lugar mais alto / Levar o país inteiro / e cada vez mais alto / Vibrar por ser o primeiro": sério, cadê a coerência interna do verso "da velocidade de nossos corações"? Não consigo entender. Lamentável: a música se chama "Fórmula 1"...
Sim, as músicas "analisadas" pertencem ao NX Zero. Se é isso que eles chamam de "não falar besteira", (quase) desisto de pensar sobre "High Hopes" e "Wish you were here", "Rock and roll all nite" e "Forever"", "Aonde quer que eu vá" e "Lanterna dos afogados".
Dá-lhe Brasil: único país onde desgraças siglamatizadas duram mais que três meses.
As "minhas" bandas não agradam à geração deprimente. Comparar o rock dos anos 60, 70 e 80 com as bandas que hoje fazem a cabeça da moçada não condiz. Impressiona-me alguém que prefira CPM 22 ao Pink Floyd, ao KISS, aos Paralamas do Sucesso. Mas...
... Analisemos. No nome, as bandas ritualizam um pacto de (não)criatividade: colocam um amontoado de letras maiúsculas; depois, inventam um significado para elas - que possui menos sentido que a própria sigla. As citadas hordas procederam assim, semelhantes a SPC e KLB. Sobre as letras...
... "Aonde eu moro, aonde eu vou / Como tudo sempre muda ao redor do sol": a primeira palavra, de acordo com a maldita gramática, escreveu-se erradamente, pois para idéia estática o uso correto é onde e não aonde. No mais, esses chavões de "tudo muda ao redor do sol" continuam bregas: você, leitor, muda quando sob o sol? Fica verde igual ao Huck ou seus cabelos caem; sua casa começa a voar?...
... "Longos foram os dias que eu fiquei a te esperar / No fundo eu já sabia, que eu não iria te encontrar...": letra reveladora. Primeiro, a teórica rima pobre - a minha cadelinha consegue sonorizar dois verbos no infinitivo ("latir" com "dormir"). Segundo, a exposição retardada: se sabia que não encontraria a dita cuja, por que aumentar o predicativo "fracassado"?...
... "Eu vou agora / Eu vou com ou sem você / Eu vou embora / Não quero mais andar em círculos". Quase um perpetuum mobile , não? "Com Raça posso até vencer / nas curvas vou ultrapassar / no limite até o fim / cada segundo que ganhei / cada suor que derramei / podem levar ao primeiro lugar / da velocidade dos nossos corações / e no lugar mais alto / Levar o país inteiro / e cada vez mais alto / Vibrar por ser o primeiro": sério, cadê a coerência interna do verso "da velocidade de nossos corações"? Não consigo entender. Lamentável: a música se chama "Fórmula 1"...
Sim, as músicas "analisadas" pertencem ao NX Zero. Se é isso que eles chamam de "não falar besteira", (quase) desisto de pensar sobre "High Hopes" e "Wish you were here", "Rock and roll all nite" e "Forever"", "Aonde quer que eu vá" e "Lanterna dos afogados".
Dá-lhe Brasil: único país onde desgraças siglamatizadas duram mais que três meses.
domingo, 6 de julho de 2008
Nua e crua
Folha de São Paulo, caderno Cotidiano: "Homem mata amigo após traição da mulher em Santa Catarina"; "Dois morreram em tiroteio durante quermesse" (SP); "Policiais militares são suspeitos de matar jovens" (SP); "Dois são presos com 305kg de droga em meio a melões" (BA).
O Globo, coluna G1: "Menina de 6 anos morre atropelada por carro da polícia" (RJ); "Acidente fere trabalhadores rurais em SP"; "Festa em escola acaba com um morto e nove feridos no RS"; "Menina de nove meses é baleada em MG".
Zero Hora, capa: "Arma é roubada em ataque a posto rodoviário em Santa Cruz do Sul" (RS); "Jovem sofre tentativa de homicídio em Novo hamburgo" (RS); "Presos supostos líderes de quadrilha que aterrorizava cidades" (BR); "Polícia encontra quatro corpos em casebre na Capital" (RS).
O Estado do Paraná, seç
ão Polícia: "Triplo homicídio na Cidade Industrial" (PR); "Jovem é morto dentro de casa no Cajuru" (PR); "Criança de dois anos é morta pelo padrasto" (PR); "Morre atropelado na BR-116 após cair da moto" (PR).
Todas publicadas em 06 de julho de 2008. Variação dum mesmo tema: violência múltipla. Na patética melhor cidade do Brasil, alguns dados alegram a bandidagem. Média de homicídio: em 2007, 1,6 morto por dia (ou 589 no ano); média de furto e roubo de carros: em 2007, 16,6 por dia (ou 6079 no ano); média de assalto a ônibus: em 2005, 8,72 por dia (ou 3181 no ano).
A isso, não se esforça combate. E a região central se revela tão ruim quanto os bairros. Ao lado da Reitoria da UFPR (representante máxima do turismo local), aumentei a p
rimeira estatística que expus... Adianta tanta rua, tanto binário, se não existe segurança? Domingo, pelos parques, contam-se nas unhas os policiais que rondam os ambientes. Estradas, estacionamento público? Nem-um guardinha ao lado.
Crer ou não crer, eis a questão. Tanta liberdade descontrolada só gera perda de esperança.
O Globo, coluna G1: "Menina de 6 anos morre atropelada por carro da polícia" (RJ); "Acidente fere trabalhadores rurais em SP"; "Festa em escola acaba com um morto e nove feridos no RS"; "Menina de nove meses é baleada em MG".
Zero Hora, capa: "Arma é roubada em ataque a posto rodoviário em Santa Cruz do Sul" (RS); "Jovem sofre tentativa de homicídio em Novo hamburgo" (RS); "Presos supostos líderes de quadrilha que aterrorizava cidades" (BR); "Polícia encontra quatro corpos em casebre na Capital" (RS).
O Estado do Paraná, seç
ão Polícia: "Triplo homicídio na Cidade Industrial" (PR); "Jovem é morto dentro de casa no Cajuru" (PR); "Criança de dois anos é morta pelo padrasto" (PR); "Morre atropelado na BR-116 após cair da moto" (PR).Todas publicadas em 06 de julho de 2008. Variação dum mesmo tema: violência múltipla. Na patética melhor cidade do Brasil, alguns dados alegram a bandidagem. Média de homicídio: em 2007, 1,6 morto por dia (ou 589 no ano); média de furto e roubo de carros: em 2007, 16,6 por dia (ou 6079 no ano); média de assalto a ônibus: em 2005, 8,72 por dia (ou 3181 no ano).
A isso, não se esforça combate. E a região central se revela tão ruim quanto os bairros. Ao lado da Reitoria da UFPR (representante máxima do turismo local), aumentei a p
rimeira estatística que expus... Adianta tanta rua, tanto binário, se não existe segurança? Domingo, pelos parques, contam-se nas unhas os policiais que rondam os ambientes. Estradas, estacionamento público? Nem-um guardinha ao lado.Crer ou não crer, eis a questão. Tanta liberdade descontrolada só gera perda de esperança.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Continuação do texto de outrem.
Os “sem-noção” do transporte coletivo (final)
(Fernando Martins)
Na semana passada, dediquei-me a escrever sobre os “sem-noção” do transporte coletivo de Curitiba – aqueles passageiros que não são propriamente mal-educados mas que costumam atrapalhar (e muito) os outros usuários sem se darem conta disso. Como essa peculiar fauna que habita nossos ônibus é muito extensa, a lista dos “sem-noção” continua hoje.
O papa-mosca: espécie que se alimenta de moscas. Fica dentro do ônibus caçando-as e, quando percebe, o veículo parou no ponto em que ele quer descer. Tomado de medo de não desembarcar, o papa-mosca resolve então empreender uma corrida de obstáculos para sair do ônibus. Obviamente, os obstáculos somos nós, os demais passageiros.
O caçador do banco perdido: espécime de “sem-noção” muito obstinado. Tem um objetivo e não desiste dele nunca: conquistar um banco para ir sentado no ônibus. O caçador costuma agir quando chega um ônibus vazio no terminal. A fila vai andando, as pessoas entram e o sujeito “sem-noção”, ao perceber que todos os assentos foram ocupados, resolve só pegar o ônibus seguinte. O problema é que ele pára em frente da porta da condução e se esquece que tem um monte de gente atrás querendo entrar. Mas o pior é quando o caçador entra no ônibus e, ao perceber que perdeu a disputa pelo último banquinho, resolve sair quando todo mundo está entrando. O tromba-tromba é inevitável.
O charada: é o mais enigmático dos “sem-noção”. Quando está em um ônibus cheio, sem razão aparente, resolve sair do lugar relativamente confortável em que está para ir a outro ponto do veículo apenas para satisfazer sua misteriosa vontade de mudança. Obviamente, para isso, vai incomodando todo mundo que está à frente. Mais enigmático ainda é quando ele está perto de uma porta de saída, cruza o ônibus inteiro para... descer pela outra porta. Nem Freud explica.
O fumacinha: é o fumante que se acha educado. Ele até se esforça. Como é proibido fumar dentro dos ônibus e das estações, ao esperar a condução ele só acende o cigarro fora... 30 centímetros fora do tubo. Obviamente, a fumaça vai toda para dentro.
O surdinho: sujeito com alta produção de cera de ouvido, a ponto de impedir que ele escute as insistentes mensagens sonoras sobre regras de embarque e desembarque veiculadas dentro do ônibus. O surdinho desce pela porta de embarque dos biarticulados e entra nos ligeirinhos antes que os demais passageiros desçam. Um cotonete ia bem.
(Fernando Martins)
Na semana passada, dediquei-me a escrever sobre os “sem-noção” do transporte coletivo de Curitiba – aqueles passageiros que não são propriamente mal-educados mas que costumam atrapalhar (e muito) os outros usuários sem se darem conta disso. Como essa peculiar fauna que habita nossos ônibus é muito extensa, a lista dos “sem-noção” continua hoje.
O papa-mosca: espécie que se alimenta de moscas. Fica dentro do ônibus caçando-as e, quando percebe, o veículo parou no ponto em que ele quer descer. Tomado de medo de não desembarcar, o papa-mosca resolve então empreender uma corrida de obstáculos para sair do ônibus. Obviamente, os obstáculos somos nós, os demais passageiros.
O caçador do banco perdido: espécime de “sem-noção” muito obstinado. Tem um objetivo e não desiste dele nunca: conquistar um banco para ir sentado no ônibus. O caçador costuma agir quando chega um ônibus vazio no terminal. A fila vai andando, as pessoas entram e o sujeito “sem-noção”, ao perceber que todos os assentos foram ocupados, resolve só pegar o ônibus seguinte. O problema é que ele pára em frente da porta da condução e se esquece que tem um monte de gente atrás querendo entrar. Mas o pior é quando o caçador entra no ônibus e, ao perceber que perdeu a disputa pelo último banquinho, resolve sair quando todo mundo está entrando. O tromba-tromba é inevitável.
O charada: é o mais enigmático dos “sem-noção”. Quando está em um ônibus cheio, sem razão aparente, resolve sair do lugar relativamente confortável em que está para ir a outro ponto do veículo apenas para satisfazer sua misteriosa vontade de mudança. Obviamente, para isso, vai incomodando todo mundo que está à frente. Mais enigmático ainda é quando ele está perto de uma porta de saída, cruza o ônibus inteiro para... descer pela outra porta. Nem Freud explica.
O fumacinha: é o fumante que se acha educado. Ele até se esforça. Como é proibido fumar dentro dos ônibus e das estações, ao esperar a condução ele só acende o cigarro fora... 30 centímetros fora do tubo. Obviamente, a fumaça vai toda para dentro.
O surdinho: sujeito com alta produção de cera de ouvido, a ponto de impedir que ele escute as insistentes mensagens sonoras sobre regras de embarque e desembarque veiculadas dentro do ônibus. O surdinho desce pela porta de embarque dos biarticulados e entra nos ligeirinhos antes que os demais passageiros desçam. Um cotonete ia bem.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Um texto de outrem.
Os “sem-noção” do transporte coletivo (Parte 1)
(Fernando Martins)
O Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba lançou há um mês uma campanha para que os passageiros curitibanos sejam mais educados. Reportagem do domingo desta Gazeta do Povo mostrou que os resultados têm sido animadores: os usuários do sistema, aos poucos, estão mais corteses uns com os outros. Isso é animador. Quem sabe alguém não pense em ampliar o foco da campanha também para os “sem-noção” do transporte coletivo. Diferentemente dos sem-educação, que geralmente sabem o que estão fazendo, os “sem-noção” – como o próprio nome diz – simplesmente não têm idéia de que seu comportamento atrapalha os outros passageiros. Veja alguns dos principais espécimes de “sem-noção” que habitam nossos ônibus:
- O apaixonado pela porta 3: esse peculiar tipo de usuário nutre uma paixão platônica pela porta 3 dos biarticulados – aquela pela qual todos entram. Ao adentrar no ônibus, o apaixonado, em vez de procurar um lugar nas extremidades do veículo, pára na porta 3. Ela deve ser tão sedutora que atrai multidões de apaixonados, que se espremem só para ficar perto dela enquanto nos cantos do ônibus há espaço de sobra. Azar daqueles que querem entrar e não conseguem.
- O boneco de açúcar: esse ser é muito sensível. Dissolve-se ao menor contato com água. Quando começa a chover – mesmo a mais leve garoa – o boneco logo fecha as janelas do ônibus, transformando o coletivo em uma sauna. É um espécime especialmente nocivo na hora do rush e no verão.
- A tia da bolsa: essa simpática senhora sempre aparece quando você mais está com pressa. Vem vindo o ônibus, você está atrasado, corre para entrar no tubo e pegar a condução quando... aparece a tia da bolsa, bem à sua frente, para pagar o cobrador. O problema é que a tia é muito esquecida. Ela sempre se esquece de pegar o dinheiro da passagem antes de sair de casa. E resolve procurá-lo dentro de sua imensa bolsa enquanto o ônibus vem chegando e a fila vai aumentando. Ela tira da bolsa celular, batom... e o ônibus chegando. Ela tira lenço de papel, óculos escuros, escova de cabelo... mas nada do dinheiro. E o ônibus chegando. Por vezes ele passa e a tia ainda não achou o dinheiro.
- O touro-sentado: esse tipo é o cara-pálida que confunde degrau com banco e gosta de sentar na escada de descida do ônibus, atrapalhando a saída dos passageiros. Normalmente faz parte da tribo dos adolescentes. Só mesmo alguém com menos de 18 anos para se sentar no chão.
Na semana que vem, conheça outros espécimes dos “sem-noção” que circulam no transporte coletivo.
(Fernando Martins)
O Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba lançou há um mês uma campanha para que os passageiros curitibanos sejam mais educados. Reportagem do domingo desta Gazeta do Povo mostrou que os resultados têm sido animadores: os usuários do sistema, aos poucos, estão mais corteses uns com os outros. Isso é animador. Quem sabe alguém não pense em ampliar o foco da campanha também para os “sem-noção” do transporte coletivo. Diferentemente dos sem-educação, que geralmente sabem o que estão fazendo, os “sem-noção” – como o próprio nome diz – simplesmente não têm idéia de que seu comportamento atrapalha os outros passageiros. Veja alguns dos principais espécimes de “sem-noção” que habitam nossos ônibus:
- O apaixonado pela porta 3: esse peculiar tipo de usuário nutre uma paixão platônica pela porta 3 dos biarticulados – aquela pela qual todos entram. Ao adentrar no ônibus, o apaixonado, em vez de procurar um lugar nas extremidades do veículo, pára na porta 3. Ela deve ser tão sedutora que atrai multidões de apaixonados, que se espremem só para ficar perto dela enquanto nos cantos do ônibus há espaço de sobra. Azar daqueles que querem entrar e não conseguem.
- O boneco de açúcar: esse ser é muito sensível. Dissolve-se ao menor contato com água. Quando começa a chover – mesmo a mais leve garoa – o boneco logo fecha as janelas do ônibus, transformando o coletivo em uma sauna. É um espécime especialmente nocivo na hora do rush e no verão.
- A tia da bolsa: essa simpática senhora sempre aparece quando você mais está com pressa. Vem vindo o ônibus, você está atrasado, corre para entrar no tubo e pegar a condução quando... aparece a tia da bolsa, bem à sua frente, para pagar o cobrador. O problema é que a tia é muito esquecida. Ela sempre se esquece de pegar o dinheiro da passagem antes de sair de casa. E resolve procurá-lo dentro de sua imensa bolsa enquanto o ônibus vem chegando e a fila vai aumentando. Ela tira da bolsa celular, batom... e o ônibus chegando. Ela tira lenço de papel, óculos escuros, escova de cabelo... mas nada do dinheiro. E o ônibus chegando. Por vezes ele passa e a tia ainda não achou o dinheiro.
- O touro-sentado: esse tipo é o cara-pálida que confunde degrau com banco e gosta de sentar na escada de descida do ônibus, atrapalhando a saída dos passageiros. Normalmente faz parte da tribo dos adolescentes. Só mesmo alguém com menos de 18 anos para se sentar no chão.
Na semana que vem, conheça outros espécimes dos “sem-noção” que circulam no transporte coletivo.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Namorar: verbo transitivo direto.
Pessoas mal-amadas costumam detestar o Dia dos namorados. Os argumentos projetam-se nos chavões "data capitalista" a "dia dos namorados é todo dia". Particularmente, prefiro encerrar a introdução para evitar xingamentos a esses tipos.
Paixão: importante. Nela, razão para um telefonema de madrugada ou para o gasto imoderado no restaurante. Gargalhadas sadias: do chocolate no dente; do tropeço no cachorro; do carro a álcool que teima em não funcionar...
Criou-se o dia para troca de presentes; não se negue a prática! Esquisito quem não sorri quando ganha a jaqueta almejada. Ao presenteado, a expectativa de receber o que implicitamente pediu; ao presenteador - será que o cd importado e o livro raro vão agradar? (Escusado escrever que jogo-de-panela e meia denotam péssimas escolhas para 12 de junho.)
Todo mundo deve namorar e dar presente. Os casais às bodas-de-ouro ainda namoram; as rosas, no processo do pólen, também; crianças se afeiçoam na bolacha recheada que trocam entre si - verbo mágico esse tal namorar! Até a vida, abstrata demais, namora as pessoas - menos as mal-amadas, que não entendem quando alguém diz "tô a fim de você" de forma subentendida.
Paixão: importante. Nela, razão para um telefonema de madrugada ou para o gasto imoderado no restaurante. Gargalhadas sadias: do chocolate no dente; do tropeço no cachorro; do carro a álcool que teima em não funcionar...
Criou-se o dia para troca de presentes; não se negue a prática! Esquisito quem não sorri quando ganha a jaqueta almejada. Ao presenteado, a expectativa de receber o que implicitamente pediu; ao presenteador - será que o cd importado e o livro raro vão agradar? (Escusado escrever que jogo-de-panela e meia denotam péssimas escolhas para 12 de junho.)
Todo mundo deve namorar e dar presente. Os casais às bodas-de-ouro ainda namoram; as rosas, no processo do pólen, também; crianças se afeiçoam na bolacha recheada que trocam entre si - verbo mágico esse tal namorar! Até a vida, abstrata demais, namora as pessoas - menos as mal-amadas, que não entendem quando alguém diz "tô a fim de você" de forma subentendida.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Paixão adolescente
Enquanto crescemos, gostos chegam, passam e, às vezes, voltam. Há, também, os que simplesmente nunca se apagam - e eu tenho um desses.
Ontem, a turnê nova. Gessinger já comentou que"Novos Horizontes" possivelmente seja o último trabalho da banda. Logicamente, não perdi o concerto dos Engenheiros do Hawaii. O resultado, após R$ 123,00 de ingresso, não se resume à palavra maravilhoso. Fileira 04: rock-anos-80 em pleno século XXI!
Nada de empurra-empurra, cotoveladas, bêbados chatos. Quiçá, novo rabugento: perdi a paciência com aglomerações em casa (de show?) mal ventilada. No Teatro Positivo, encontrei acústica perfeita, um cenário encantador, espaço para pular. Ouvi e cantei seguramente, entre "O papa é pop" e "Ando só", "No meio de tudo você", "3ª do plural", "Faz de conta"... Old and new!
(HG: incomparável letrista; melodias pinkfloydianas; sintético; metafórico; novamente no baixo; dono indiscutível da banda; infelizmente, gremista.)
Algumas pessoas não esquecem namoradas passadas. Outras, algum jogo de futebol. A minha paixão cinge a banda gaúcha. Uma grande vantagem: minha namorada não sente ciúmes, não se importa: até apóia: paixão é diferente de amor.
Ontem, a turnê nova. Gessinger já comentou que"Novos Horizontes" possivelmente seja o último trabalho da banda. Logicamente, não perdi o concerto dos Engenheiros do Hawaii. O resultado, após R$ 123,00 de ingresso, não se resume à palavra maravilhoso. Fileira 04: rock-anos-80 em pleno século XXI!
Nada de empurra-empurra, cotoveladas, bêbados chatos. Quiçá, novo rabugento: perdi a paciência com aglomerações em casa (de show?) mal ventilada. No Teatro Positivo, encontrei acústica perfeita, um cenário encantador, espaço para pular. Ouvi e cantei seguramente, entre "O papa é pop" e "Ando só", "No meio de tudo você", "3ª do plural", "Faz de conta"... Old and new!
(HG: incomparável letrista; melodias pinkfloydianas; sintético; metafórico; novamente no baixo; dono indiscutível da banda; infelizmente, gremista.)
Algumas pessoas não esquecem namoradas passadas. Outras, algum jogo de futebol. A minha paixão cinge a banda gaúcha. Uma grande vantagem: minha namorada não sente ciúmes, não se importa: até apóia: paixão é diferente de amor.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
O elemento o mais urbano possível!
Catalisador de gastrite, enxaqueca, crise de choro: estresse. Presente nas ruas, nos lares, nos seres. O mantra flui, mas forças irritantes insistem na quebra da paz. Tempos modernos.
A empresa de telefonia aliada ao provedor incompetente. Contas inexistentes, formato PABX, atendentes mal-educadas, promessas em gerúndio. O Procon não dispensa a esquisita relação entre burocracia gratuita e competência. Xerox pra cá, reconhecimento de firma pra lá; o cidadão? parado? muito brabo?
Família e trabalho misturados representam confusão. Discussões porque a filha leva amigos ao serviço; brigas porque o pai não concorda com o cálculo da mãe; chateações porque a tia quer meter-se na administração do negócio. Para completar, os observadores - que alvitram somente em momentos intempestivos.
A faculdade a seqüência estonteante de trabalhos O melhor sistema de transporte do Brasil As improfícuas formalizações laborais O serviço bancário Rinite Poça d'água O cachorro que escapuliu e não voltou O café esfriou A blusa molhada (ai que frio!) O computador que trava à hora de digitar Mais estesse... Estresse... Estresse...
Dos mínimos aos máximos, Hans Selye - se vivo - concluiria "My God!" para a irritação que ajudou a formalizar.
A empresa de telefonia aliada ao provedor incompetente. Contas inexistentes, formato PABX, atendentes mal-educadas, promessas em gerúndio. O Procon não dispensa a esquisita relação entre burocracia gratuita e competência. Xerox pra cá, reconhecimento de firma pra lá; o cidadão? parado? muito brabo?
Família e trabalho misturados representam confusão. Discussões porque a filha leva amigos ao serviço; brigas porque o pai não concorda com o cálculo da mãe; chateações porque a tia quer meter-se na administração do negócio. Para completar, os observadores - que alvitram somente em momentos intempestivos.
A faculdade a seqüência estonteante de trabalhos O melhor sistema de transporte do Brasil As improfícuas formalizações laborais O serviço bancário Rinite Poça d'água O cachorro que escapuliu e não voltou O café esfriou A blusa molhada (ai que frio!) O computador que trava à hora de digitar Mais estesse... Estresse... Estresse...
Dos mínimos aos máximos, Hans Selye - se vivo - concluiria "My God!" para a irritação que ajudou a formalizar.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Livre concorrência(?)
"Desconsideremos" o Renmin Dahuitagn: são dez mil lugares. No Brasil, ele representaria um absurdo cultural, econômico e político. Todavia, temos teatros de que podemos, sim!, orgulhosamente tratar.
O Teatro de Manaus é uma sala centenária com capacidade para 701 pessoas. Construído à época do Ciclo da Borracha, traz arquitetura clássica: ogivas altas e teto abobadado. Em cada parede, homenagem a importantes nomes da arte (Mozart, Carlos Gomes, Ésquilo, Aristóphane...). Abrange a Companhia de Dança, o Coral e a Orquestra Filarmônica do Amazonas.
Em São Paulo, saliência para o Teatro Municipal. Casa da Semana da Arte Moderna (1922), seu aspecto civil segue a Opéra national de Paris. Foi inaugurado em 1911 com uma sessão de "Hamlet" - ópera de Ambroise Thomas. Comporta de 1500 a 1600 espectadores e, dentre seus projetos, destaca-se a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo.
Uma contagem interessante está nos Pampas. Dos trinta auditórios nacionais com capacidade superior a mil poltronas, sete são gaúchos: Auditório Araújo Viana; Teatro do SESI; Teatro PUC; Teatro da UFRS; Teatro Guarani; Teatro da OSPA; Teatro do Bourbon Country. Em todos, programação exemplar. Curiosidade: antes da última reforma por que passou, o Auditório Araújo Viana possuía capacidade para três mil pessoas!
... espaços curitibanos? Famosa pelo seu Festival de Teatro, Curitiba apresenta du
as das mais completas salas do Brasil: o poderoso Guaíra - construído em arquitetura moderna, cuja sala principal (Bento Munhoz da Rocha, o "Guairão") foi fundada em 1974 e comporta 2173 pessoas; o Teatro Positivo - edificado em traços os quais remontam ao maravilhoso Teatro Epidaurus (Grécia, séc. IV a.C.), possui 2400 lugares e é o maior teatro do Paraná. Essa "concorrência de gigantes" será muito cultural para a capital paranaense.
Faltam linhas para o Teatro Guararapes, o Teatro Castro Alves, o Teatro Nacional Claudio Santoro... Outras importantes salas que embelezam o cenário scenicu do Brasil. Individualmente, estamos longe do Renmin Dahuitagn; juntos, entretanto, contabilizamos bem mais que um-bilhão-e-alguns-milhões de chineses: brasileiro sempre deve ser multiplicado por dez...
O Teatro de Manaus é uma sala centenária com capacidade para 701 pessoas. Construído à época do Ciclo da Borracha, traz arquitetura clássica: ogivas altas e teto abobadado. Em cada parede, homenagem a importantes nomes da arte (Mozart, Carlos Gomes, Ésquilo, Aristóphane...). Abrange a Companhia de Dança, o Coral e a Orquestra Filarmônica do Amazonas.
Em São Paulo, saliência para o Teatro Municipal. Casa da Semana da Arte Moderna (1922), seu aspecto civil segue a Opéra national de Paris. Foi inaugurado em 1911 com uma sessão de "Hamlet" - ópera de Ambroise Thomas. Comporta de 1500 a 1600 espectadores e, dentre seus projetos, destaca-se a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo.Uma contagem interessante está nos Pampas. Dos trinta auditórios nacionais com capacidade superior a mil poltronas, sete são gaúchos: Auditório Araújo Viana; Teatro do SESI; Teatro PUC; Teatro da UFRS; Teatro Guarani; Teatro da OSPA; Teatro do Bourbon Country. Em todos, programação exemplar. Curiosidade: antes da última reforma por que passou, o Auditório Araújo Viana possuía capacidade para três mil pessoas!
... espaços curitibanos? Famosa pelo seu Festival de Teatro, Curitiba apresenta du
as das mais completas salas do Brasil: o poderoso Guaíra - construído em arquitetura moderna, cuja sala principal (Bento Munhoz da Rocha, o "Guairão") foi fundada em 1974 e comporta 2173 pessoas; o Teatro Positivo - edificado em traços os quais remontam ao maravilhoso Teatro Epidaurus (Grécia, séc. IV a.C.), possui 2400 lugares e é o maior teatro do Paraná. Essa "concorrência de gigantes" será muito cultural para a capital paranaense.Faltam linhas para o Teatro Guararapes, o Teatro Castro Alves, o Teatro Nacional Claudio Santoro... Outras importantes salas que embelezam o cenário scenicu do Brasil. Individualmente, estamos longe do Renmin Dahuitagn; juntos, entretanto, contabilizamos bem mais que um-bilhão-e-alguns-milhões de chineses: brasileiro sempre deve ser multiplicado por dez...
domingo, 6 de abril de 2008
Em que se trata do que deveria persistir
Ao redor do fogo, cerveja e carne assada. Um tio conta o passado do seu irmão mais velho. Este, embora negue o relato, sabe que os filhos aceitam os fatos. Orgulho geral: antigamente, era digno apanhar por causa da malandragem. E todos os homens riem ao redor da churrasqueira.
Às mulheres, na cozinha, a maionese. Entre si, alguma intimidade do dia-a-dia. Cada tia trouxe uma sobremesa. Aliás, muita história boa ocorre nesse transporte. Incrível: uma das gelatinas caiu no colo do motorista; o cachorro pulou no bolo de fubá; um filho travesso furou o pudim com o dedo. E todas as mulheres riem na cozinha.
O almoço. Ao fundo de "Passe o macarrão pra cá!" ou "Maldito! Você derrubou coca na minha batata!!!", alguma do Teixeirinha. O tio fanfarrão senta a mão nas, digamos, ancas da esposa -a qual fora buscar mais salada. Ela ruboriza, mas demonstra empáfia: "Meu homem!". E todos riem em volta da mesa.
Mas a era se estica. Hoje, tapas de dez homens em uma só guria. Em vez de "Meu homem", ela pensa "Quantos machos de uma só vez?". Não se deseja casar, ter uma vida digna, assar carne ou preparar maionese. O almoço de família foi trocado: baladas são mais espirituosas. Aniversário? Até meia-noite, R$ 30,00 de entrada e R$ 45,00 de consumação. (R$ 5,00 cada lata de cerveja quente.
O passado não pode ser revelado aos filhos. Máscaras ao cigarro precoce, às agressões gratuitas, ao ensino médio incompleto por causa da gravidez precoce...) E todos riem sem porquês.
Mudança pra pior! Comentam-se, já, casamentos em casa noturna. Por "aquele" precinho, todos numa pista de som. Literariamente, isso poderia chamar-se naturalismo. E quão incompreensível, ao fim da festa, a conclusão "por que não ganhei presentes? por que nem todo mundo está feliz?". Vidas vazias, totalmente secas.
Insensível quimera de regressar à idade das bestas.
Às mulheres, na cozinha, a maionese. Entre si, alguma intimidade do dia-a-dia. Cada tia trouxe uma sobremesa. Aliás, muita história boa ocorre nesse transporte. Incrível: uma das gelatinas caiu no colo do motorista; o cachorro pulou no bolo de fubá; um filho travesso furou o pudim com o dedo. E todas as mulheres riem na cozinha.
O almoço. Ao fundo de "Passe o macarrão pra cá!" ou "Maldito! Você derrubou coca na minha batata!!!", alguma do Teixeirinha. O tio fanfarrão senta a mão nas, digamos, ancas da esposa -a qual fora buscar mais salada. Ela ruboriza, mas demonstra empáfia: "Meu homem!". E todos riem em volta da mesa.
Mas a era se estica. Hoje, tapas de dez homens em uma só guria. Em vez de "Meu homem", ela pensa "Quantos machos de uma só vez?". Não se deseja casar, ter uma vida digna, assar carne ou preparar maionese. O almoço de família foi trocado: baladas são mais espirituosas. Aniversário? Até meia-noite, R$ 30,00 de entrada e R$ 45,00 de consumação. (R$ 5,00 cada lata de cerveja quente.
O passado não pode ser revelado aos filhos. Máscaras ao cigarro precoce, às agressões gratuitas, ao ensino médio incompleto por causa da gravidez precoce...) E todos riem sem porquês.
Mudança pra pior! Comentam-se, já, casamentos em casa noturna. Por "aquele" precinho, todos numa pista de som. Literariamente, isso poderia chamar-se naturalismo. E quão incompreensível, ao fim da festa, a conclusão "por que não ganhei presentes? por que nem todo mundo está feliz?". Vidas vazias, totalmente secas.
Insensível quimera de regressar à idade das bestas.
sexta-feira, 14 de março de 2008
Possibilidade
NO Evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago humaniza Jesus. Dores e líbido cercam o Messias. Obviamente, os cristãos criticaram a obra. Este post também será alvo de censuras.
O politeísmo não acabou. Houve reformulações. A crença católica confirma: santos no lugar dos deuses gregos. E assim como estes, aqueles possuem funções específicas. Um para casamento; outro para chuva; cada país com o seu. Atena interveio no destino de Odisseu; os homens atuais (solitários, em alguns momentos, igual ao Ulisses) crêem nos santos para conseguir amor ou colheita.
A Santíssima Trindade é outro sinal de não-monoteísmo. Entidades diferentes? Circunlóquio, três: crenças diversas. Deus, Espírito Santo e Jesus comportam "etapas" diferentes
; Posseidon, Hades e Zeus formavam divisão "sintática". Semelhanças entre pagãos e cristãos, de novo: duas trindades divinas?
Deus, assim como de Zeus se sabe, é inquestionável. Conseguiram essa classificação sob imposições. Zeus se sobressaía perante seus próprios comandados; Deus, à cobiça do demônio. Há cultos, músicas e festas para os dois. O vinho após as batalhas gregas; o sangue no primeiro domingo do mês. As odes após as batalhas gregas; os testemunhos cristãos subseqüentes a uma benção. Tudo em público, claro.
O post não visou à verdade. Todavia, não custa repensar certas estruturas. Cada ser humano deve ter suas crenças. Acreditar é importante - seja no metafísico, na liberdade, no não... O que não pode é pôr fé na ignorância. Não, não.
O politeísmo não acabou. Houve reformulações. A crença católica confirma: santos no lugar dos deuses gregos. E assim como estes, aqueles possuem funções específicas. Um para casamento; outro para chuva; cada país com o seu. Atena interveio no destino de Odisseu; os homens atuais (solitários, em alguns momentos, igual ao Ulisses) crêem nos santos para conseguir amor ou colheita.
A Santíssima Trindade é outro sinal de não-monoteísmo. Entidades diferentes? Circunlóquio, três: crenças diversas. Deus, Espírito Santo e Jesus comportam "etapas" diferentes
; Posseidon, Hades e Zeus formavam divisão "sintática". Semelhanças entre pagãos e cristãos, de novo: duas trindades divinas?Deus, assim como de Zeus se sabe, é inquestionável. Conseguiram essa classificação sob imposições. Zeus se sobressaía perante seus próprios comandados; Deus, à cobiça do demônio. Há cultos, músicas e festas para os dois. O vinho após as batalhas gregas; o sangue no primeiro domingo do mês. As odes após as batalhas gregas; os testemunhos cristãos subseqüentes a uma benção. Tudo em público, claro.
O post não visou à verdade. Todavia, não custa repensar certas estruturas. Cada ser humano deve ter suas crenças. Acreditar é importante - seja no metafísico, na liberdade, no não... O que não pode é pôr fé na ignorância. Não, não.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Isto sim que é disputa!
Peço desculpas às demais torcidas: Internacional e Grêmio têm a maior rivalidade regional do futebol tupiniquim. Nos pampas, time é parte do corpo. Pai e filho com chimarrão, picanha; cinco sentidos focados nas jogadas.
Desculpas, agora, aos gremistas: a história dos grenais prova a superiorida
de colorada. Dos 369 encontros, o Inter possui 137 vitórias. São exatos 19 (dezenove) triunfos a mais que o rival tricolor. Os gols atingiram o número 1015 - com 524 do Internacional e 491 do Grêmio.
Algumas curiosidades envolvem os grenais. Dos 10 mais importantes, 07 terminaram com vitória colorada. Primeiro confronto: Grêmio 10 X 0 Internacional. Todavia, os demais jogos revertem o tropeço alvi-rubro. Em 1954, na Inauguração do Olímpico, o Inter presenteou o Grêmio com uma vitória de 6 X 2. O grenal do século, em 1988, terminou Saci 2 X 1 Mosqueteiro (de virada; Inter com um a menos). O clássico do gol mil encerrou grandiosamente; o primeiro clássico internacional, em 2004, também (perdoem o trocadilho!).
A maior goleada em campeonatos brasileiros foi do Inter (5 X 2, 1997). Com relação ao público, o recorde sempre se situou no Beiro Rio. Em 1989, eram 78 mil pessoas no jogo Internacional 2 X 1 Grêmio (bilheteria recorde). O Inter conquistou todos os títulos que o Grêmio já conseguiu. Muitos deles, com brilho demasiado superior: campeão do Campeonato Brasileiro invicto, em 1979; octocampeão gaúcho, de 1969 a 1976.
Enfim, dados. A superioridade colorada não atrapalha o confronto. Como escrevi, grenal é o maior clássico do Brasil. Inter e Grêmio somam 18 títulos em torneios nacionalmente eminentes. Mas como poetizou Nélson Silva, no "Celeiro de Ases", vibra o Brasil inteiro com o clube do povo do Rio Grande do Sul. No coração, um só: dá-lhe Inter!
Obs.: "Celeiro de ases": http://www.internacional.com.br/mp3/hino_celeirodeases_original.wav!
Desculpas, agora, aos gremistas: a história dos grenais prova a superiorida
de colorada. Dos 369 encontros, o Inter possui 137 vitórias. São exatos 19 (dezenove) triunfos a mais que o rival tricolor. Os gols atingiram o número 1015 - com 524 do Internacional e 491 do Grêmio.Algumas curiosidades envolvem os grenais. Dos 10 mais importantes, 07 terminaram com vitória colorada. Primeiro confronto: Grêmio 10 X 0 Internacional. Todavia, os demais jogos revertem o tropeço alvi-rubro. Em 1954, na Inauguração do Olímpico, o Inter presenteou o Grêmio com uma vitória de 6 X 2. O grenal do século, em 1988, terminou Saci 2 X 1 Mosqueteiro (de virada; Inter com um a menos). O clássico do gol mil encerrou grandiosamente; o primeiro clássico internacional, em 2004, também (perdoem o trocadilho!).
A maior goleada em campeonatos brasileiros foi do Inter (5 X 2, 1997). Com relação ao público, o recorde sempre se situou no Beiro Rio. Em 1989, eram 78 mil pessoas no jogo Internacional 2 X 1 Grêmio (bilheteria recorde). O Inter conquistou todos os títulos que o Grêmio já conseguiu. Muitos deles, com brilho demasiado superior: campeão do Campeonato Brasileiro invicto, em 1979; octocampeão gaúcho, de 1969 a 1976.
Enfim, dados. A superioridade colorada não atrapalha o confronto. Como escrevi, grenal é o maior clássico do Brasil. Inter e Grêmio somam 18 títulos em torneios nacionalmente eminentes. Mas como poetizou Nélson Silva, no "Celeiro de Ases", vibra o Brasil inteiro com o clube do povo do Rio Grande do Sul. No coração, um só: dá-lhe Inter!
Obs.: "Celeiro de ases": http://www.internacional.com.br/mp3/hino_celeirodeases_original.wav!
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Que complicado!
O que eu sinto a respeito dos homens é estranho. Nenhum de Nós, faixa "Extraño". Refleti acerca desse trecho.
Leitores não criam seguidores; restringem-se a linhas para outros chatos. Filósofos falidos se igualam aos líderes políticos: falam, falam, falam... E gerúndio. Pensadores pregam a educação popular mas escrevem em linguagem demasiado expropriada! Estudiosos esquisitos visam à exposição gratuita de conhecimentos.
Misantropos enquanto ganham dinheiro. Jovens compram pick-up para não carregar mais que um. Fumantes desprovidos de cigarros coletivos. Filhos se garantem com as terras dos pais. A divisão de cargos via influência. A literatura chorosa às margens de um rio. O boleiro fanático reclama do preço do livro.
Idosos de 20 anos não cedem lugar a recém-mães. Homens são fiéis à mesa da sogra. Pais compensam com computador, video-game e McDonald. Namorados-de-sexo zombam de bodas de ouro. Alienados preferem sinestesia ao real perfume de mulher. Assassinos revezam no plantão.
Darwin significa evolução a quê? Nelsinhos estupram pela prazer da imposição. Padres vencem a prova de aliciamento. Promíscuas simbolizam a sensualidade universal. Professores oferecem a outra face a alunos. Pessoas desconhecem o poder da crença.
O que eu penso a respeito de tudo é tão estranho. O distúrbio soa comum, mas perder a fé não se torna estranho.
Leitores não criam seguidores; restringem-se a linhas para outros chatos. Filósofos falidos se igualam aos líderes políticos: falam, falam, falam... E gerúndio. Pensadores pregam a educação popular mas escrevem em linguagem demasiado expropriada! Estudiosos esquisitos visam à exposição gratuita de conhecimentos.
Misantropos enquanto ganham dinheiro. Jovens compram pick-up para não carregar mais que um. Fumantes desprovidos de cigarros coletivos. Filhos se garantem com as terras dos pais. A divisão de cargos via influência. A literatura chorosa às margens de um rio. O boleiro fanático reclama do preço do livro.
Idosos de 20 anos não cedem lugar a recém-mães. Homens são fiéis à mesa da sogra. Pais compensam com computador, video-game e McDonald. Namorados-de-sexo zombam de bodas de ouro. Alienados preferem sinestesia ao real perfume de mulher. Assassinos revezam no plantão.
Darwin significa evolução a quê? Nelsinhos estupram pela prazer da imposição. Padres vencem a prova de aliciamento. Promíscuas simbolizam a sensualidade universal. Professores oferecem a outra face a alunos. Pessoas desconhecem o poder da crença.
O que eu penso a respeito de tudo é tão estranho. O distúrbio soa comum, mas perder a fé não se torna estranho.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Quem será o sambista?
Uma amiga anunciou mudança. Para surpresa, Curitiba como destino. Antes do embarque, as típicas perguntas. Acerca do clima, comentei que a tendência ao frio é desafiadora. Sobre a praia, citei os 934m acima da linha do mar. Do questionamento sobre o desfile de carnaval, ri.
Uma carioca não encontrará Escolas de Samba decentes fora da Cidade Maravilhosa. Se nem a Vai-Vai (das mais antigas do Brasil) consegue elevar o status de São Paulo, ima
gine se a Mocidade Azul curitibana... Três agremiações, dois carros alegóricos, rainhas de bateria propensas a pelancas: eis o desfile da terra do pinhão. Seriedade em bizarrices?
Não que o desfile do Rio continue puro. Escolas de Samba, lá, também mudaram. No primórdio, quando Mangueira - a mais ilustre - e Portela - recordista de títulos - tiveram a rápida concorrência da Deixa Falar - primeira Escola de samba -, as disputas costumavam ser sadias. Competição musical. Havia o pudor da festa européia com a ginga verde-amarela. Os idealizadores se respeitavam exemplarmente. Ismael Silva (Deixa Falar) e Cartola (Mangueira) eram malandros, bandidos não.
Da exaltação dos costumes tupiniquins caímos no produto de mercado. O Governo Federal liberou, este ano, R$ 12 milhões para cada Escola do Rio. Procurou-se "aumentar os investimentos no setor de turismo". Que balela! Desconfio desses "investimentos" assim como desconfiei dos grampos telefônicos na sede da Beija-Flor. Definitivamente, o lado cultural-carnavalesco se perdeu. A marchinha existencialista cedeu lugar à bunda. A empolgação da platéia quedou-se perante o poder da mídia. Sem extensões à promiscuidade.

Devo repensar meu conceito de desfile. Todas as Escolas de Samba estão corrompidas - por incapacidade ou conduta anti-ética. Braguinha, Saturnino Gonçalves, Paulo da Portela: ilustres falecidos. Os substitutos aparecem em proporção desigual, gradativamente modificados. Quando não houver mais gente boa, tenho medo das alegorias que surgirão nos sambódramos. O Carnaval, em Curitiba ou no Rio, termina na mesma impressão: vergonha.
Uma carioca não encontrará Escolas de Samba decentes fora da Cidade Maravilhosa. Se nem a Vai-Vai (das mais antigas do Brasil) consegue elevar o status de São Paulo, ima
gine se a Mocidade Azul curitibana... Três agremiações, dois carros alegóricos, rainhas de bateria propensas a pelancas: eis o desfile da terra do pinhão. Seriedade em bizarrices?Não que o desfile do Rio continue puro. Escolas de Samba, lá, também mudaram. No primórdio, quando Mangueira - a mais ilustre - e Portela - recordista de títulos - tiveram a rápida concorrência da Deixa Falar - primeira Escola de samba -, as disputas costumavam ser sadias. Competição musical. Havia o pudor da festa européia com a ginga verde-amarela. Os idealizadores se respeitavam exemplarmente. Ismael Silva (Deixa Falar) e Cartola (Mangueira) eram malandros, bandidos não.
Da exaltação dos costumes tupiniquins caímos no produto de mercado. O Governo Federal liberou, este ano, R$ 12 milhões para cada Escola do Rio. Procurou-se "aumentar os investimentos no setor de turismo". Que balela! Desconfio desses "investimentos" assim como desconfiei dos grampos telefônicos na sede da Beija-Flor. Definitivamente, o lado cultural-carnavalesco se perdeu. A marchinha existencialista cedeu lugar à bunda. A empolgação da platéia quedou-se perante o poder da mídia. Sem extensões à promiscuidade.

Devo repensar meu conceito de desfile. Todas as Escolas de Samba estão corrompidas - por incapacidade ou conduta anti-ética. Braguinha, Saturnino Gonçalves, Paulo da Portela: ilustres falecidos. Os substitutos aparecem em proporção desigual, gradativamente modificados. Quando não houver mais gente boa, tenho medo das alegorias que surgirão nos sambódramos. O Carnaval, em Curitiba ou no Rio, termina na mesma impressão: vergonha.
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