domingo, 16 de dezembro de 2007

As aparências enganam

Quanta ilusão em torno do Natal do Palácio Avenida. Quem conhece o Ballet Bolshoi se desola com a tosca base que as crianças do coral HSBC recebem: um mês de fama, onze de provações - e essa oscilação subseqüencia o descompromisso entre Brasil e decência.

O Teatro Bolshoi é uma instituição fundada em 1773, na Rússia, pelo príncipe Peter Urussov. Por lá, promove o ingresso de criança "pobre" na melhor dança do mundo. O projeto sofreu casualidades (incêndio, trocas administrativas) mas se manteve, ao longo dos séculos, fiel ao propósito inicial. Tão fiel que em 1998 deslocou um pouco dessa grandeza para terras tupiniquins.

Em 2007, formou-se a primeira turma de bailarinos profissionais do Ballet Bolshoi. Os jovens tiveram, ao longo de oito anos, aulas de educação básica, língua estrangeira, história da arte, teoria e prática musical, expressão corporal, dança clássica, dança popular, interpretação, maquiagem; assistência médica e odontológica; bolsa-auxílio; roupas e viagens. Cada passo era orientado por uma equipe "de ponta", formada principalmente por brasileiros e russos. Nomes como Pavel Kazarian, Galina Anatolievna, Agrippina Vaganova, Henrique Beling e o grande Vladimir Vasiliev garantiram a competência da primeira filial do Teatro Bolshoi fora da Rússia.

Uma opção para jovens desfavorecidos socialmente (95% do total de alunos da instituição) conseguirem materializar um sonho. Exemplo: em 2006, numa apresentação na sede do Bolshoi, em Moscou, a bailarina Mariana Gomes se tornou a primeira brasileira a ingressar na companhia russa. Recompensa pelas mais de cinco horas diárias de treinos e aplicações.

Percepção que o Ballet Bolshoi gera: ainda faz sentido investir em cultura. Ainda. Criações que liguem humanamente os segmentos da inteligência - educação, arte, esporte, trabalho... - são bem-vindas. Contudo, sabemos das dificuldades nacionais: dificuldade de investir no culto, de aceitar o que é trabalhosamente doloroso, de ser honesto. Há métodos mais práticos de atingir-se o sucesso: o roubo, a cola, meia-dúzia de crianças que, após um mês de cantoria em janelas, terão duas "oportunidades" musicais possíveis: banda de rock no estilo CPM 22 ou Capital Inicial; prosti-bandas no estilo Axé Blond ou Calipso.

- Até quando os isolados conseguirão ser exemplos?

- Não sei, não sei...

sábado, 8 de dezembro de 2007

Todos juntos, vamos...

Um bar é sinônimo de união. Para justificar, amplio não-paradoxalmente a "noção temporal" de Santo Agostinho. O autor dos Solilóquios escreveu a permanência de registros dentro de um único tempo: o presente. Neste, incluem-se resgates, verificações e antecipações que implicam as demais divisões cronológicas: memória: presente das coisas passadas; visão: presente das coisas presentes; expectativa: presente das coisas futuras. Exatamente o que acontece numa roda de beberrões.

Ontem - com algum povo da faculdade - praticamente dois engradados de cerveja. O presente da confraternização se reproduz na minha memória. Recupero informações preciosíssimas. No boteco: fala-se mal de pessoas chatas; comenta-se sobre o que há de bom e o que há de desgraçado na UFPR; canta-se parabéns para os 21 anos do amigo; combina-se a despedida que ocorrerá na próxima quinta-feira; anseia-se pela aparição de quem não pôde ir. Como se dá toda essa aglutinação? Com os ganchos que só o presente produz, oras!

O que importa é beber e sorrir. Quem não lembra a piada que o pai desastrosamente contou? Quem consegue derramar cerveja cinco vezes seguidas? Quem canta vitória antes da primeira rodada de cartas? Resposta: todos ao redor da mesinha. As seqüências se desenvolvem no presente que depois se torna comparação entre as confraternizações que separam memória (ou seja, que já maravilhosamente ocorreram) e expectativa (esperança de haver uma "palhinha" antes da próxima reunião).

Sei que soou despragmática a justificativa. Não faz mal. Pra quem está fora do bar, toda aquela algazarra também não convém. A inveja - Ah, eles têm amigos! Ah, eles tomam Bohemia! Ah, eles não precisam agüentar a mulher reclamona! - sufoca melancolicamente. Um recado para os pseudo-ortodoxos: existe mundo fora da fase cristã de Aurelius Augustinus. No modo etílico, qualquer assunto se mistura.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Pra entendidos.

A alegria futebolística possui várias faces. Ontem, quando o sr. Alício Pena Júnior apitou o fim do jogo em Porto Alegre, pude comemorar: o Corinthians estava rebaixado à Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. Não me causou tristeza a derrota, em Goiás, do Inter. Pelo contrário, o tropeço do meu colorado era indispensável para a desgraça corinthiana.

Meu contentamento consiste na denotativa queda do Timão. Muita gente surge com a incrível falsidade "Ah!, eu sou contra o vazio que o Corinthians representa na história do futebol nacional". Pra mim, o Alvi-Negro tem uma certa notoriedade. Segunda maior torcida do Brasil; quatro títulos nacionais; recordista de títulos paulistas; craques como Sócrates e Rivelino atuaram no Parque São Jorge - tudo isso reafirma a importância.

Mas alguns atributos tornaram o Corinthians um time arrogante. Conrinthianos fanáticos estão na lista dos seres mais insuportáveis que existem. A mídia criou uma aura em torno desse time a qual simplesmente não se pode aceitar. A CBF também compartilha do protecionismo: em nota no site oficial, afirmou que a confederação investigará o atraso que ocorreu no Olímpico e no Serra Dourada. No globo.com, todas as mais de vinte reportagens "de capa" eram sobre o Timão. Sensacionalismo barato: isso que me irrita! E o vice-campeonato do Santos? E a vaga na Libertadores que o Cruzeiro garantiu? E a lista das equipes classificadas pra Sul-Americana? E os outros rebaixados? A soma de todas essas torcidas supera o número de rebaixados, ops, de conrinthianos - o que torna trivial argumentos acerca de atingir o maior público. Aplaudo a união brasileira (que nunca se repetirá) pelo rebaixamento dessa equipe que, em jogadas de marketing, quer sobrepor-se ao mundo.

Segundas-feiras passaram a ser mais assinalantes. Se o vereador Valdenir Dias deseja implantar o dia do flamenguista curitibano - o primeiro dia últil da semana nacional se imortalizou automaticamente como conotação à situação do Corinthians: segunda divisão. Resta, aos jogadores, vender amendoim entre os intervalos dos jogos da Série B: gerar dinheiro até a famosa e ambígua "ajuda oculta" chegar ao Parque São Jorge.

domingo, 25 de novembro de 2007

As incoerências coerentes

Em troca de e-mails, amigo e eu concluímos: o Brasil passa por tantas incoerências sociais e políticas que, na real, erros se tornam coerentes entre si. O povo, portanto, é elemento estranho à convivência. Viver está cada vez mais perigoso.

Uma coletânea de horrores. No Pará, quatro casos de mulheres presas junto a homens. Uma delas de 15 anos - cuja certidão de nascimento foi falsificada pela polícia. Outra, para sobreviver, comercializou: sexo em troca da comida que os detentos prazerosamente escondiam. Reflexos da falta de presídios femininos, do silêncio da justiça local.

Fernando Henrique Cardoso: "Faremos o possível e o impossível para que saibam falar bem a nossa língua. (...) Queremos brasileiros melhor educados, e não liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria.". Linguisticamente, há discussões sobre "boa fala"; gramaticalmente, perante particípio se utiliza "mais bem" e não "melhor". A incoerência de cobrar algo que não é capaz de produzir.

E a Monica? Contou, no livro introspectivo, que Renan cantava "Eu sei que vou te amar" pra ela. Que amor! E quem pagou a conta do telefone, do restaurante? O povo, a gente "que vai levando" (trecho de outra música do mesmo compositor) e lendo a alegria de Maluf concorrer à p********* de São Paulo em 2008!

Em Curitiba, a situação também não está agradável. Moreira, reitor (da UFPR) o qual liberou a troca de habilitação - para alunos de Letras - sem a necessidade de novo vestibular ou PROVAR, pretende sair candidato. Aparências enganam! O químico não controla a Universidade, imagina a cidade... Quiçá, fará calçadas nas ruas que o atual gestor constrói. Só.

Muito mais. Listar seria demorado e garanto que já há gente de saco cheio desse post. Assim mesmo: se a relidade dói, no Brasil ela dói, causa riso e se hemofilia: incoerências de uma sociedade coerentemente sem remédio.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Análise da 1ª fase do vestibular da UFPR - Português

A prova manteve-se na normalidade da UFPR. Solicitou-se muita interpretação; o que houve de gramática estava contextualizado. No mais, acompanhem a análise proposta.

O primeiro texto, “Sem culpa e sem vergonha”, retirado da revista Veja, era base de três testes. O título, inclusive, já indica uma correlação que um exercício retoma. Damatta dissertou sobre corrupção. Do passado ao presente, tratou das diversas manifestações corruptas do país – com foco principal na atualidade. Para o autor do texto, esse problema por que passamos, enquanto organização política, está no fato de protegermos aqueles que nos são próximos, independente do erro que eles cometeram. Quando, porém, o erro foi cometido por pessoas distantes, assumimos posição de justiceiros e exigimos rigor da lei. Para ilustrar, ele veste a dualidade com as parcerias existentes entre políticos.

46) Resposta correta: Somente as afirmativas 2 e 4 são verdadeiras. A 1 está errada porque, no texto, o autor menciona que a "ética particularista" e a "ética universalista" "operam em qualquer sistema social" (primeira frase do segundo parágrafo). A 3, ao propor que "... a corrupção (...) está vinculada a determinadas ideologias e partidos políticos.", contradiz o que o autor escreve em "como revela o governo Lula, independe de colocação ideológica ou partido político" (quarta frase do primeiro parágrafo; grifo meu).

47) Resposta correta: um grupo de parlamentares. Aqui, duas maneiras básicas de encontrar a alternativa certa: perceber a ironia composta nas locuções em torno do "nosso" e do "nos", numa representação - em discurso indireto livre - da fala de alguns políticos; notar que, por exemplo, "o povo brasileiro" NÃO foi favorecido em inúmeras situações pelo presidente do Congresso Nacional (o que anula a alternativa que trazia "o povo brasileiro" como possibilidade).

48) Resposta correta: distancia os políticos do seu papel social. À leitura de "Tenho para mim que o intolerável e verdadeiramente enlouquecedor (...) a manifestação daquelas duas éticas no campo do "político", justamente a esfera destinada a resolver a duplicidade." (primeira frase do terceiro parágrafo; grifo meu), percebe-se que autor somente não admite a dupla manifestação ética entre políticos. A alternativa "se relaciona com sentimentos de culpa a vergonha, decorrentes da ética da rua e da casa, respectivamente." contém erro, justamente, na ordem que estipula para as éticas e respectivos sentimentos.

49) O texto da questão era sobre a proposta de rodízio de carros do vereador Custódia da Silva - medida que visa à diminuição de congestionamentos e queda da poluição. Reparem na fonte: texto do site da Gazeta do Povo. Isso justifica a importância, dada em sala de aula, da leitura de conteúdos dispostos na rede.

Resposta correta: [...] no centro da cidade é impossível transitar com veículo nos dias de semana [...] o centro tem um excelente sistema de trasporte e caminhar só fz bem à saúde. (E.M.). Essa foi a única manifestação favorável à implantação do rodízio. As demais, com atenção interessante ao humor da "Minha opinião é... quem foi que votou nesse vereador Custódia da Silva??? (L.G.P.I.)", são contra.

O texto "A Filosofia como investigação", contido na edição de agosto de 2007 da revista Cult, deveria ser interpretado para as questões 50 e 51. O autor, Waldomiro José da Silva Filho, aborda como tema central a verdadeira definição para o cético filosófico. Ele defende a idéia de o cético negativo ser conceito pertencente ao momento moderno da filosofia. Para justificar essa opinião, resgata o conceito cético encontrado nos pensamentos dos filósofos gregos antigos e o confronta com Descartes. Aqueles, em suas formulações, transmitiam o lado interessante do pensamento cético, pois seus questionamentos eram embasados nos motivos para iniciar a creça em algo - ao cotrário do que propunha este.

Obs. 1: os que terão prova específica de filosofia... Prestem atenção no texto! - principalmente por: presença de Descartes; menção a "gregos antigos"!

Obs.: 2: ad hoc, latim, traduz-se ao pé-da-letra por para isto.

50) Resposta correta: Dizer que não se sabe ou não se tem certeza de nada já representa um conhecimento e uma certeza. Nota: "refutável" (latim refutare) significa "contestável". Aquele que afirma não saber de nada, obrigatoriamente descobriu algo sobre seu saber; quem não tem certeza de nada, apresenta uma certeza quanto à incerteza que possui. Ou seja: toda conclusão em forma de afirmação vai representar, sim, um aprendizado, um saber.

51) Leiam estas sentenças, retiradas do texto:
- "Essa atitude negativa que se atribui ao filósofo cético (...) tal dúvida é inventada por filósofos modernos.";
- "... já disse que a filosofia moderna e contemporânea costuma recorrer a "caricatas figurações" (...)";
- "Há, assim, ma diferença crucial entre o cético moderno e o cético antigo. O primeiro lança uma dúvida radical sobre todos os domínios do conhecimento."
- "mas a pergunta mais fundamental: 'temos alguma razão para acreditar?'".

Resposta correta: O ceticismo moderno questiona as condições do conhecimento; o antigo, se há por que crer. (Reparem que esta última oração é pura paráfrase de "temos alguma razão para acreditar?".) As frases transcritas contradizem os erros das alternativas desconsideradas.

52) Resposta correta: Os otimistas têm menos possibilidades de morrer de doenças cardiovasculares do que os pessimistas, afirmam os pesquisadores do Instituto de Saúde Mental da Holanda. À leitura da segunda parte do texto, dada no enunciado da questão, a primeira parte obrigatoriamente precisava conter uma comparação entre "otimistas" e "algum outro grupo" (no caso, pessimistas) - com ênfase positiva naqueles, para a permanência da coerência. Nenhuma das outras proposições acordava com tais "exigências".

53) A charge de Fausto, intitulada "Brasil em ação", retirada de http://www.charges.com.br/, trazia quatro quadros com acontecimentos brasileiros. Queimadas florestais, violência em torno do avanço urbano, crises na saúde e no fornecimento elétrico e o caso Renan Calheiros estavam dispostos lado-a-lado: símbolos das últimas ações ocorridas no país.

Resposta correta: Somente as afirmativas 1 e 2 são verdadeiras. A 3 está incorreta porque a vergonha do brasileiro se representou na fala das personagens - não no mico. Na 4, o erro encontra-se no fato de a afirmativa igualar as pessoas da charge aos políticos brasileiros - quando elas representam o povo indignado.


"Modos de pensar a televisão" é um artigo, retirado da revista Cult, de Arlindo Machado. O texto se inicia com o conceito de seriação televisiva. Um programa, dividido em partes, também remonta a uma divisão: ele pertence ao conjunto das apresentações que sofreu ao decorrer do tempo. Tal conjunto se chama seriação. O autor compara esse tipo de processamento à produção em série das fábricas automobilísticas: recurso para manter no ar, por muito tempo, programações baseadas na repetição de um mesmo esqueleto.

Por fim, ocorre um explicação ambientada para a seriação televisa. Como a programação da televisão compete com vários aspectos "caseiros", capazes de tirar atenção do telespectador, a repetição da programação é uma forma de reiterar, a cada segundo, o que acontece na telinha - sem permitir o desinteresse de quem assiste. Daí a importância da receptitividade e da criatividade que o programa deve possuir.

54) Resposta correta: decorre tanto das condições de produção dos programas quanto de sua recepção. Justificativas: "... as razões que levaram a televisão a adotar a seriação como a principal forma de estruturação de seus produtos audiovisuais. Para muitos, a televisão (...) funciona segundo um modelo industrial e adota como estratégia produtiva as mesmas prerrogativas da produção em série que já vigoram em outras esferas industriais..." (primeira e segunda frase do segundo parágrafo) e "... se vê permanentemente constrangida a levar em consideração as condições de recepção..." (quarta frase do terceiro parágrafo) são dois trechos retirados do texto. As demais alternativas ou apresentam equívocos (como a que menciona "pouca criatividade") ou não apresentam informações contidas no texto.

55) Resposta correta: "[...] a produção televisual se vê permanentemente constrangida a levar em consideração as condições de recepção [...]" (forçada). O termo, em destaque na frase, transmite idéia de obrigação, de atitude à força. "constrangida" é particípio passado de "constrangir" - que veio do latim constringere e significa, entre outros, "forçar" - verbo que, por sua vez, gerou o particípio "forçada".

As outras palavras:
- prerrogativa (latim praerogativa): regalia, apanágio, privilégio;
- intrínseco (latim intrinsecu): que está no interior de uma coisa, e que lhe é próprio, essencial;
- contingência (latim contingencia): eventualidade, possibilidade imprevisível, incerteza;
- fragmentário (latim fragmentu): que se encontra em fragmentos, sem unidade.

56) Resposta correta: Os presídios não são uma forma de mudar o ponto de vista de quem esteja lá preso. Não é porque foi preso que um marginal que já fez de tudo na vida vai mudar totalmente. Repare que ocorre a concordância verbal entre o sujeito "Os presídios" e o verbo "são" e entre o sujeito "um marginal" e o verbo "vai". Duas alternativas não obedeciam a essa gramaticalidade - concordância verbal. Das outras duas, uma apresentava contradição ("Os presídios não são uma forma de mudar (...) um marginal (...) vai mudar totalmente"); a outra atribui a mudança ao que o marginal já fez na vida, não ao presídio.

57) A charge "Engenheiros de vendas", retirada do jornal Folha de São Paulo, retrata uma conversa ambígua entre um patrão e um consumidor.

Resposta correta: Somente a afirmativa 2 é verdadeira. A ambigüidade ocorre em torno da locução " É verdade?" - que possibilita a confirmação do atributo que o produto teria (o de consertar-se sozinho) ou a confirmação SOMENTE de que o vendedor disse algo (o que NÃO implica a veracidade do que foi dito pelo vendedor). A 1 e a 3 estão incorretas justamente porque o patrão, ao confirmar SOMENTE a fala do vendedor, subjetivamente torna mentiroso o auto-conserto do produto em questão.

Dúvidas? prof.mozao@gmail.com!!

domingo, 18 de novembro de 2007

Aquiles, cadê você?

No caminho de volta pra casa, hoje, um cidadão desesperado me parou com a súplica "Moço, como faço pra chegá no cemitério Água Verde? Mataram minha irmã de deiz anos, deiz anos...". Além de o coitado estar de bicicleta, chovia. O choro daquele homem era sincero a ponto de eu me perder nas coordenadas. Que belo panorama para uma noite de domingo.

A violência, em Curitiba, atingiu seu auge. A capital paranaense percebe-se abandonada no quesito segurança pública. O prefeito projeta ruas, ruas, ruas... Mas não cogita a fixação de policiamento em famosos pontos de marginalidade. Lembro, ainda, as promessas de campanha não cumpridas que, de certa forma, contribuem para a insegurança: passagem não se congelou; a Unidade de Saúde 24h do Pinheirinho que, de oito salas, apresenta apenas duas disponíveis para o público; a não continuação do calçamento; o diálogo com as classes sociais. Descaso de um tucano para com os adestradores que lhe dão comida.

Semana passada, na Rui Barbosa, dois elementos apontaram a arma para roubar o boné de um estudante. Isso ocorreu às 22h, em pleno 15 de novembro, a dois metros de mim. O detalhe da cena está no fato de toda sã consciência saber que o cruzamento da André de Barros com a Visconde de Nacar é dos mais violentos da cidade. Não havia sequer uma viatura parada ali por perto. Aliás, faz tempo que a única manifestação da polícia são investidas frustradas na primeira viela de alguma favela. A bandidagem agradece essa cortesia!

Também sofre quem transita ou trabalha em transporte coletivo. Certas linhas chegam a ser assaltadas três vezes por dia. Os batedores-de-carteira têm muito serviço nos Ligeirinhos lotados. Molestadores atingiram o ponto de aliciar crianças de dez, onze anos. Idosos recebem agressões fortíssimas. Mas pra que que o PSDBista vai se preocupar se ele circula de caminhonete 2007? As ruas criadas servem para ele melhor dirigir o veículo (blindado, no seguro, com dois particulares dentro) novo.

Sei, com o perdão da expressão, que a coisa ´tá feia em todas as cidades brasileiras. A viúva de umas das vítimas do acidente com o vôo 3054 (aquele dos 187 mortos) teve de sair do país porque uma quadrilha visou à indenização que nem foi paga ainda. No Rio, os tiroteios ao meio-dia condensam-se diariamente. Os fazendeiros do Pará; os Magalhães na Bahia. Só que Curitiba possui só 30 (trinta) anos de "metrópole"! Se, nesse pouco tempo, os índices negativos conseguiram tamanho patamar, terão meus filhos sustentabilidade social pelo menos adequada?

Às vezes eu fantasio haver um Aquiles escondido por aí. Anseio pelo momento em que ele retornará à guerra - só que urbana, agora - para ajudar a nossa sociedade. Mas se nem na literatura o final é sempre feliz, imagina na vida real. Homer(o), ai Homer(o).

domingo, 4 de novembro de 2007

A Vida, a Morte, a Criação

"A morte, o problema da morte, é outra questão sobre a qual não se pode deixar de pensar. A obra de Tom Jobim daqui a cinqüenta anos, o que será? Falar em cem ou duzentos anos é imprudência nesse mundo em que tudo passa muito depressa e muda vertiginosamente. A partir de alguns anos, tudo é imprevisível. Penso, no entanto, que o futuro vai conhecer uma visão mais espiritual das coisas, o que talvez aumente o interesse pela obra de um Tom Jobim. Muitas vezes, conversando com os amigos, eles me perguntam o que estou fazendo agora. Costumo responder: ‘Estou escrevendo para a posteridade, estou trabalhando para a estátua’.

A criação é um ato de amor, alguma coisa que se comunica a toda a humanidade. Um artista não pode fazer nada que contribua para piorar o mundo. Acho que tenho deveres para com as pessoas com quem convivo.

A vida tem um sentido oculto, certamente. Fui criado em ambiente cético, de maneira agnóstica. Diante da natureza, sinto que toda a negação é ingênua, que Deus não nos teria criado para o nada.

As pessoas estão hoje muito mais rudes e agressivas do que há alguns anos. Numa rua perdida, num bairro tranqüilo, onde brincam crianças, um carro passa a toda velocidade pelo simples prazer de correr ou por qualquer outro motivo, indiferente a tudo e a todos. Se ao menos estivesse apressado para chegar a algum lugar. O aprendizado é difícil, a gente tem que se reeducar para não violentar os outros e para não se deixar violentar. Apesar de tudo, a vida pode ser agradável para quem gosta do que faz. Ali em cima daquele piano há músicas inéditas que precisam ser trabalhadas. Se tudo correr bem, se o avião não cair, a gente grava, a gente escreve, para deixar aí para os moços, para quem quiser e puder fazer melhor no futuro.

É isso aí o que eu queria dizer."

(JOBIM, Helena. Tom Jobim - Um Homem Iluminado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.)

domingo, 21 de outubro de 2007

Drops de Deus

Credo! Muito acontecimento para poucos dias. Morte, título, Nobel, corrida presidencial russa; expectativas. E ainda leio absurdos como "Eita, vida parada!". Possibilidades: desocupação ou o que chamo de alienação (des)intelectual. Piora quando a conjunção alternativa é trocada pela aditiva.

Paulo Autran, o mito do teatro nacional, faleceu. Levou consigo a trajetória do gênero. O homem das faces literárias, com máscaras de Shakespeare (Rei Lear), de Shaw (Pigmalião), de Molière (O avarento), de Sartre (Mortos Sem Sepultura), representou inclusive a realidade: fingiu a dor que deveras sentia. Declamava que fumava numa interpretação gratuita de uma campanha não-divulgada: o hábito que derruba 85 anos. Obteve reconhecimento (mas não do Presidente Lula, que, assim como FHC procedeu quando da morte de João Cabral de Melo Neto, não foi ao enterro do astro). Magistralmente, suas principais datas se confundem com a História: nasceu no primeiro centenário da Independência do Brasil (mesmo ano da Semana de Arte Moderna); morreu no dia da padroeira nacional.

Tenho uns 500MB de poesias que ele recitou: qualidade sonora e dramática! 90 peças, 11 filmes, 9 participações televisivas e uma aparição na festa de Natal do Palácio Avenida. Parcerias? A mais bela ocorreu numa amizade - Maria Antonieta Portocarrero Thedim.

Com uma perda assim, mencionar que a próxima disputa presidencial na Rússia será entre Putin e Gasparov é secundário. No mesmo nível, mantêm-se o título do Kimi Räikkönen, o Nobel da Doris Lessing, o afastamento por cansaço que Renan Calheiros solicitou e recebeu. Fatores importantes mas, exceto a vitória do homem-de-gelo, questionáveis em seus graus: o campeão do xadrez pode ser paciente demais no governo; a inglesa foi laureada por causa de meia dúzia de asneiras espaciais ou feministas (sim, ela não soube juntar os dois temas) que produziu em seus 88 anos; o presidente do Senado marcou mais um ponto na disputa com a nação: Renan 2 X -2 Brasil.

Imortais não choram. Ensinam, ao contrário, que se deve quebrar o agito que muitos negam ter. Terêncio: "homo sum: humani nihil a me alienum puto". De fato, não podemos desconsiderar nenhum detalhe dos humanos ao nosso redor. Mas os da morte pesam mais, ah!, como pesam... Ainda mais se for a morte de gente boa. Como disse o cantor predileto, "quando se anda em círculos, nunca se é bastante rápido". Metonímia: um pouco de cada assunto já serve para separarmos o que vale a pena, o que tem solução - e quem marcou corações.

Extra:
- Link para um video-tributo a Paulo Autran: http://www.youtube.com/watch?v=b5P1mdn5V8E;
- Link para baixar o cd Quatro séculos de poesia, coletânea de poemas nacionais declamados por Paulo Autran: http://d.turboupload.com/d/1214638/4secPA.rar.html.


quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Superação da futilidade pseudonímica ou a presença heteronímica

Ode marcial
[Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)]

Inúmero rio sem água — só gente e coisa,
Pavorosamente sem água!


Soam tambores longínquos no meu ouvido
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo


Helahoho! Helahoho!

A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta...
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,


Tudo misturado, tudo misturado com os corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror


Helahoho! Helahoho!

Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta

E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração

Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso com uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito.


E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar
E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.


Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e batil-lhe.
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.


Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou me o sopro de Deus.


Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviúve e a quem aconteça isto?


Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trêmulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isto se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive a ninguém!


O maior poeta modernista. Fernando Pessoa não precisou de poemas com vinte páginas para fixar-se. Melhor: produziu-se sob heterônimos (72, segundo Teresa Rita Lopes), através dos quais variou sobre a mesma arte - e polemizou. Um deles - autor do poema acima, que com Ricardo Reis e Alberto Caeiro forma a principal tríade das vidas extras do autor português - atrapalhou o único namoro que Pessoa teve. Entendeu? A ficção destruiu a realidade. Isso é profundidade (sempre poética) que hipnotiza teorias, estudiosos e leitores. Ferdinand Personne era um obscuro.

Não sofria de problemas mentais. A consciência dos heterônimos (nunca pseudônimos) gerou-lhe muitas reflexões. Pessoa declarou "Muitos deles exprimem idéias que não aceito, sentimentos que nunca tive." acerca dos outros eus. Excesso de histérico talento. E de trabalho. O Guardador de rebanhos (Alberto Caeiro) foi escrito numa só noite, em 1914. Nesse mesmo ano, o Reis e o de Campos entraram na brincadeira literária. Sobrou até pra mulherada: as sensações de Maria José. Entretanto(s), pensemos sobre os três principais.

Alberto Caeiro se tornou o mestre dos outros dois. Em amplo sentido. Sua obra O Guardador de rebanhos traz a filosofia de Nietzsche aplicada à antipoesia. O poeta camponês apostou no sensacionismo como percepção literária. Não acreditava na alma. Interpretou a manifestação lingüística como parcial empecilho à reprodução da sinestesia: pregou a quebra da linguagem puramente mimética. A palavra passou a entrar na engrenagem da produção, porque tem influência direta no "por trás" do material real. Questionou, também, a eficácia cristã. Morreu vítima de tuberculose.

Álvaro de Campos, talvez o mais feio dos três por causa do óculos defeituoso que usava, também se voltou ao sensacionismo. Negou o material para penetrar naquilo que se sente ao enxergar o concreto. Mas, se para Caeiro a sensação era suficiente, de Campos buscou a semântica secundária que o sentir provoca. Os signos lingüísticos novamente estavam em alta - deveriam servir de ferramenta na busca incansável da interpretação dos sentidos. Isso explica a constante presença, por exemplo, de onomatopéias em suas poesias. Mais moderno que os outros; mais experimental. O poema que abre o post traz um estilo clássico - ode fúnebre - submetido a tendências modernistas - versos exclamativos e brancos, métrica deslocada, diversidade temática. Figurou principalmente entre os Futuristas.

Ricardo Reis, o médico que não tratou de Pessoa (trocadilho), é importante para nós: em determinado momento, viveu em terras tupiniquins. Foi um assíduo seguidor das formas clássicas, talvez pela forte leitura que realizou de obras latinas. Inclusive, a tentativa de Horácio (mascaração do sofrimento) aparece em sua produção. Foi o que mais "se distanciou" do lente Caeiro, principalmente no que diz respeito à palavra: esta deveria representar diretamente a natureza, o homem, o mundo.

Mas... E o ortônimo? Fernando Pessoa, só pelos "outros", já se tornou imortal. Mas criou obras precisas e definitivas com a assinatura própria. "O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente". Sentiu, como poucos, a necessidade de expressar-se em várias vozes (singulares entre si). Tranformou em literatura o desvio de linhagem que carregava. Fingiu acreditar em diferentes possibilidades e deu vida às manifestações diversas que muitos não têm coragem de exprimir. Fantasiava-se no real e no imaginário (Chuva Oblíqua, assinado como próprio, apresentou poemas de Alberto Caeiro; num encontro marcado com José Régio, misteriosamente quem apareceu no lugar de Pessoa foi Álvaro de Campos). Na produção, destacou-se o sebastianismo; a busca pelo herói, pelo patriotismo histórico; aproximação a Camões; influência do orientalismo, do cristianismo gnóstico, do teosofismo, do racionalismo, da maçonaria.

Tratou da vida como um todo. Por ser incapaz de, sozinho, dar conta de todo o histórico humano, figurou(-se) nos hetenônimos. Escavou duplamente a realização literária. Buscou o tudo. Realizou o tudo. Mas não se sabe ler a mágica impossível que existe nos versos pessoanianos. Concordo com Harold Bloom (certa raridade, que explicarei num futuro não muito distante): o mais influente poeta do século XX. Que Drummond, Tom Jobim, Dulce Pontes comprovem a habilidade de ser vários. "I know not what tomorrow will bring...". Pessoa também escreveu em inglês (e muitos).

Obs.: eu tenho um cd com poesias do Fernando Pessoa declamas. Quem quiser ouvir - avise!

domingo, 23 de setembro de 2007

Descoberta, tédio não

Ouvi discos. De encontro à opinião de pseudointelectuais, ainda se produz decência musical (nacional). Pouco material, de fato, mas essa restrição é coerente com nosso momento: Renan permanece no Congresso; o PAC apanha de litígios; a seleção feminina de futebol joga melhor que a masculina; a Globo, o Edir Macedo.

Um retrospecto. O perído entre 1958 e 1963 e a década de 80 encerram as duas principais manifestações musicais da nossa história. Não se trata de descaso, por exemplo, ao Tropicalismo ou ao samba inaugural do início do século XX (deste, aliás, gosto bastante). Quando se pensa em música, a completa qualidade de letra, melodia, inovação não-parcial e elevação mundial é o modo de preparo do bolo. E somente a bossa-nova e o rock da década exposta é que conseguiram todos os atributos de uma só vez.

A tríade Vinicius, Tom e João produziu completo sucesso. Esse trabalho elevou a bossa brasileira à (chega de) saudade. Aquele com a letra; esse com a reestruturação da harmonia brasileira; este com a batida seca no violão, com o canto suave. "A felicidade", composição lançada em 59, registrou nesse mesmo ano 24 regravações; trilhou o premiado "Orfeu do Carnaval", filme de Marcel Camus. "Garota de Ipanema", iniciada em disco em 1963, tornou-se o expoente musical nacional: segunda música mais regravada da história (do mundo). No mesmo ano de divulgação, conseguiu uma versão em inglês, "The girl from Ipanema" (Tom Jobim a tocou ao lado de Frank Sinatra, no Carnegie Hall). Inúmeros artistas estrangeiros - entre eles Louis Armstrong, Nancy Wilson, Peggy Lee, Stephane Grappelli - renderam-se aos encantos da menina bronzeada, da moça que carrega, em meio à multidão, a cadência que hipnotiza a voz poética. Interessante, ainda, é perceber a intertextualidade literária que a música sugere: o spleen moderno e a nova composição apresentados por Baudelaire; o obscuro To be or not to be(...).

O rock dos anos 80 trouxe a caoticidade temática à nossa música. Falava-se de amor, de violência, de política, de futebol, de praia (em certos casos, tudo de uma vez só). Nomes como Cazuza e Renato Russo despontaram como heróis da geração Coca-Cola que buscava uma ideologia. Todavia, essa devoção exacerbada ofuscou bandas mais brilhantes - e nesse ponto chego aos Engenheiros do Hawaii. Em Curitiba, há alguns dias, o novo cd deles - "Novos Horiozontes".

A banda mais odiada. A sociedade braseileira não reconheceu (e ainda não reconhece) a profundidade gessingeriana. Com a média de 1,8 livro/ano, normal que poucos ouvintes entendam (e reflitam sobre) as referências a Sartre, Huxley, Nitzsche, Platão, Camus, Drummond, Hesse, Orwell, Sclyar, Santo Agostinho, Goethe, Mallarmé criadas nas letras que a banda apresentou. Na sonoridade, composições que remontam à MPB e ao progressivo inglês setentista introduziram um avanço importante na pauta nacional. Objetivo: criação de um estilo rebelde que fugisse da santíssima trindade "sexo drogas rock and roll".

O novo cd mantém a proposta de mudança. "Eu não consigo odiar ninguém" é música cujo verso foi composto no ideal de Gandhi: o líder indiano afirmou-se "incapaz de odiar qualquer ser vivo". Através desse lema, o mahatma conseguiu a independência da Índia. Será que não serve, para o Brasil, uma resistência pacífica? "No meio de tudo, você" acrescenta amor ao desespero. Amar (restrito, agora) representa novamente a possibilidade positiva da sociedade que acha lindo trabalhar excessivamente; que elege políticos pela "capacidade" lingüística que têm; que se contenta com Coca-cola e com a mídia impositiva. "Guantánamo": me tira daqui / não adianta gritar / me ajuda a fugir / ninguém vai escutar / não agüento mais: eu não tenho a resposta. Nome de música que remete à prisão que os Estados Unidos mantêm no sudete de Cuba. Nos livros, consta que os norte-americanos praticam, lá, atos que violam o Tratado de Genebra. Interação com História(s): desespero perante a crise, sem drogas para aliviar a tensão, sem canções que serenam (mas sempre a esperança de alguém atrás da porta). Ainda, um comentário sobre "Quebra-cabeça": a canção, ao mesmo tempo que trata de uma relação amorosa, pode ser interpretada como metamusical: o refrão é pouco, mas é tudo que eu posso oferecer / é quase nada mas é tudo que eu tenho a oferecer talvez signifique um eu que se desculpa por não conseguir ter respostas claras, soluções precisas pras desgraças expostas. Ele reconhece que tentou e que essa tentativa não cura os enfermos existenciais (sem distorções). Mesmo assim, oferece este mínimo como reflexão: a música, o cd, a obra da banda - novos horizontes pensantes. Variações de um mesmo tema pois, na real, o que importa é muito pouco.

A prisão: sociedade. As torturas: Renan, PAC, seleção, Globo, Edir. Talvez, a resistência pacífica não vingasse no Brasil porque o povo é pacífico até demais. Tudo bem que o sistema aliena mas... Até que ponto as pessoas não se reflexivamente alienam? Acreditam em pseudointelectuais e, por isso, continuam ouvindo seu guarda eu não sou vagabundo. Vagabundo não é bem a tachação... Ainda há salvação musical. Sim: basta aceitar a qualidade e não render-se a bundas com celulite. Alguns temas são recorrentes, alguns não.

sábado, 8 de setembro de 2007

Ausência de heróis

Há três dias, no ônibus, ouvi "Nossa, minha gerente é uma mala. Ela vem corrigir quando a gente faz coisa errada. A do outro setor agüenta tudo sozinha.". Confesso que fiquei preocupado com a recepão que a ética recebe.

Eu não estava "bicando" o papo. Lia meu volume numa página precisa. Contudo, os decibels (Sistema Internacional de Física) da conversa não me permitiram concentração. A partir de então, percebi que as concepções de trabalho e diversão se misturaram completamente. A pessoa legal é a que tolera erros e prejudica uma empresa. Já a chata é a que traz ensinamento. Pensando bem, a lástima não se restringe a questões trabalhistas.

Desde pequena, a sociedade se acostuma com estereótipos desviados. O melhor aluno não é o que estuda pra prova; é o que tira nota boa colando e, a ssim, não "perde" tempo nos livros. O homem exemplar não é o que trabalha todo santo dia pra, no fim de semana, ter uma graninha que possibilite levar a família ao parque ou tomar sua cerveja sexta-feira à noite; exemplo de capacidade é o traficante que, sem suar a camisa, tem grana de sobra e comanda (por imponência) meio mundo.

Uma explicação pode encontrar-se na música. Quando se trata de samba de morro, a referência é a mesma que o livro "Memórias de um sargento de milícias" (do romântico Manuel Antonio de Almeida) produz: o malandro que, sem ferir o próximo, sobrevive. Ouça-se "E com muito da façanha / Sempre um perde e outro ganha / Um dos dois parou de versejar". Noel Rosa trouxe a disputa para o verso. A literatura, a lisonja, a esperteza sadia em ação conjunta. Quando o infeliz se prende a meia-dúzia de ritmos desgraçados, qual a tendência? Prostituição, drogas, alienação. Sem tocar na quantidade de cornos... O bom rock and roll, a boa bossa nova, as músicas de exaltação nativista (Ah!, Grande Teixeirinha!) perdem espaço para o espírito maloqueiro (que consegue transformar 90% da sociedade em decepção nacional). "Vai me enterrar na areia? / Não, não, vou atolar" deveria denotar enterro fúnebre. De quem canta, de quem ouve. A aberração, o orgulho sem motivo, a criminalidade em ação conjunta.

Não é de estranhar o cerol na mão das moças que reclamavam da disciplina no trabalho. Também não estranho que, com o histórico analisado, esse povo medíocre apresente cinco filhos com educação precária; três maridos passados (dois deles simultâneos); um cd do Babado Novo ao lado de uma cópia fuleira de "A última seia"; o dilema "Deus preparou isso pra mim". Conclusão: a inteligência não aparece na lista de (a)tributos; biologicamente, a burrice não tem limites.

domingo, 19 de agosto de 2007

Amor, preocupação, carinho...

Minha namorada está gripada. Todo mundo assim o fica (alguns, como eu, com uma constância assustadora). Mas por mais simples que seja o problema de saúde, os que endeusam a pessoa "fraca" se mostram muito preocupados. Trata-se do amor: em qualquer nível, decente ou platônico.

Li as entrevistas que a Clarice Lispector realizou quando trabalhou como jornalista para, por exemplo, a revista Fatos & Fotos: Gente. As perguntas fogem à neutralidade jornalística; penetram, muitas vezes, no existencialismo típico da escritora. Indagações rápidas como É bom estar apaixonada? provocaram muita reflexão a vários dos entrevistados - e as respostas extrapolaram algumas linhas. Dentre as 44 personalidades, as questões realizadas a Nelson Rodrigues e a Vinicius de Moraes me encantaram mais. Um dia escrevo sobre aquela; esta me interessa ao post.

Uma resposta de Vinicius me causou náuseas. É claro, mas eu ainda acho que o amor que constrói para a eternidade é o amor paixão, o mais precário, o mais perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do infinito. Amor doloroso é um conceito transcendente. É o típico amor de namorado que ouve as tosses da namorada. Do homem que leva a mulher para jantar num dia frio. Do marido que bate o carro no caminho da maternidade. Isso é transcendência em terra. E dolorosa. Nada de espiritualismo por enquanto. Apenas concretização de uma promessa e dor física.

A semântica de amor só aparece na preocupação. Um eu te amo se ouve com freqüência pelos bares, ruas, shoppings, motéis. Mas... Quantos são sinceros? No momento sofrível, o desdobramento cuidadoso denota, sim, carinho. Sacrificar alguma hora a mais de beijinhos que não têm fim. Tomar um chá horrível junto com a, no meu caso, gripadinha. Expor-se ao mal gripal da companheira (e isso pra mim soa tão assustador...). Tudo isso é ternura pura, tão pura quanto a que Vinicius demonstra, na entrevista comentada, pela mão da Clarice...

Sei que muita gente já escreveu sobre gripe, amor, amor e gripe. Posso citar alguns casos. Contudo, lembro que já foi escrito algo como todo texto é inédito, seja qual for o tema (batido). Brega? Sei não. Amo. E isso me faz crescer – e me prevenir.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Três poemas.

A une passante
[Charles Baudelaire]

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit ! - Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité ?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais !


A uma passante
[tradução de Ivan Junqueira]

A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!


A uma passante (de roupa)
[versão de Mozer Anjos]

Na pilha em torno, apenas roupas do marido.
Escravizada, só, cantando lamentosa,
A mulher engoma – sem ar de desastrosa –
Camisas, ternos, gravatas do referido.

Varizes, mãos calejadas, sina cretina.
E o senhor da casa (no sofá, aprecia
Cerveja) ameaça, reclama, desafia
A triste passadeira cuj’alma é divina.

Que vida!... Dias mordazes!... E a liberdade
Sonhada não chega, não vem... Assim, em vez
Dela as amigas demonstram felicidades.

A mulher passa e repassa por todo o mês!
Às conversas com colegas, porta-se triste:
- Elas têm o melhor ferro-de-passar qu’existe...

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Nem toda queda é real

Difícil de acreditar: Marco Aurélio Garcia - assessor especial da presidência - nega que comemorou, frente às câmeras, uma possível falha mecânica no avião da TAM o qual provocou o maior acidente aéreo da história do Brasil. A próxima atitude dele, então, será assumir sua paixão pelo Tabajara Clube de Futebol. Primeira conclusão: duas mentiras. Segunda conclusão: não ocorre uma preocupação sincera com a situação no céu do país.



O vôo 3054 não foi um caso isolado. Em Congonhas, só esse ano, houve quatro deslizes na pista decadente. Vários pilotos têm declarado um sintético medo de pousar, em dias de chuva, no aeroporto da Zona Sul de São Paulo. Alguns, inclusive, combinaram não descer enquanto não acontecerem melhorias. O grooving, se é que existe, está precário. As rotas nacionais, em geral, possuem buracos negros em todo o percurso. A modernização dos aeroportos não acontece porque o órgão responsável - a Infraero - desvia a atenção (dos investimentos) para sabe lá Deus onde. A ANAC possui um presidente, Sr. Milton Zuanazzi, que se preocupa com receber medalhas desmerecidas e tenta empurrar argumentos falhos nas explicações acerca dos problemas da aviação civil.



Engana-se quem pensa que a apuração sobre as causas do acidente está acelerada. O mesmo equívoco se percebe em textos que afirmam que os governantes estão preocupados com o bem-estar da população. E erra, também, o leitor que crê na imediata reformulação da organização aérea do Brasil. Com o exemplo do primeiro parágrafo, claro está que o grande desafio dos excelentíssimos é desviar a atenção do público com relação à deficiência da aviação brasileira. O presidente da República não toma atitudes. Faz alguns dias que leio as mesmas frases: Lula consola as famílias dos mortos; Lula afirma que haverá solução; Lula pede para que ninguém se alarme. Palavras bonitas que, inclusive, meu vizinho e eu poderíamos declarar publicamente. Mas e as reais atitudes? Onde está a cura para essa doença que contamina o setor aéreo?



O chefe máximo não está sozinho. Infelizmente. E para nossa “alegria”, todo mundo continua na mesma lengalenga. Demitiu-se o Waldir Pires. Chamou-se o Nelson Jobim e, a este, foi dada a carta branca para qualquer mudança que ele deseje operar. Ora! A primeira medida deve criar uma ética política nesse Brasil (que canta mas não é feliz...). Outro que caiu foi o J. Carlos Pereira, até então presidente da Infraero (aquela que desvia até pensamento). Oposição e governo concordam que a hora do brigadeiro chegou. Ele se conscientizou disso quando disse “Estou pronto para sair”. Lamento que as mudanças, visíveis e necessárias há muitos anos, só hajam ocorrido após um (negativo) saldo de aproximadamente 200 mortes. Contudo, pensemos: vai melhorar alguma coisa com o troca-troca?



Permutar figurinhas repetidas não resolve o buraco dos álbuns. Com o perdão da morbidez, político ruim só sai de cena quando morre. Enquanto não, trabalhadores sofrem em todos os patamares com um problema que resulta de erros consecutivos e históricos. O sistema aéreo nacional atingiu o ápice da desqualificação: ou moderniza ou as carroças voltam. Segundo reportagem televisiva, há quem gaste R$ 1.100,00, em táxi, para evitar o avião. Bom pra quem tem grana; pior pra quem passa três dias mofando num pátio de aeroporto (... as carroças...). Santos Dumont teria outro motivo para suicidar-se caso presenciasse a atual baderna. Quem cai nunca é o homem público que ri da desgraça alheia. É o cidadão de bem.


terça-feira, 17 de julho de 2007

Um pouco de torcida, muito de mídia: pérfidas

Os atletas brasileiros tornam-se Atlas. Levam o Pan nas costas pois, do governo, só recebem aperto de mão (e alguns apertos indiretos...). Mas com relação às vaias e aplausos ou à gritaria e silêncio (da torcida, claro), isso realmente é muito pessoal.

Alguns competidores, como os da natação, deixaram claro que o agito os ajuda. As meninas da ginástica não curtiram o barulho. No tênis, o silêncio é imprescindível. Enquanto que o futebol tem como décimo segundo jogador a torcida fervente. Inviável é, claro, sair perguntando "Amigo atleta: silêncio ou baderna?". Mas com um pouco de bom senso a gente consegue perceber quais modalidades permitem uma extrapolação de ânimos.

Em minha pessoalidade, detesto o lance de vaias. Quando a gente acompanha a seleção, o Brasil torna verde-e-amarelo todos os países por que passa. Em 70, no México, por exemplo, dos 107.000 torcedores que acompanharam a final da Copa do Mundo, apenas uma meia dúzia vibrou pela Itália; os mexicanos adotaram a seleção canarinho! Por que, então, a gente hostiliza tanto os atletas estrangeiros (a lutadora de taekwondoo mexicana, por exemplo)? Por quê? Em 1994, nos Estados Unidos, novamente a Itália sofreu com o apoio "torcedoral" ao Brasil. Detalhe: não foram vaias que abalaram os jogadores italianos. Treze anos depois, os atletas estadunidenses, em vez de harmonia, só faltam receber bananas na cabeça.

(Às vezes, um "Brazil!" bem gritado - e no momento certo - ajuda bem mais que um monte de bicos em "u".)

Mas ainda há um outro agravante: a televisão. Hoje, quando li na Folha de São Paulo que a emissora do Marinho-Kane perdeu 30% de audiência (de 2006 pra cá), fiquei momentaneamente contente. Depois, entristeci: no fim das contas, uma outra rede vai continuar com a poluição midiocrática... O ideal é uma revolução no jornalismo brasileiro. Os canais não se preocupam com a instrução do povo. Simplesmente, incentivam vaias e gritarias desnecessárias. Inclusive, não ignoro quem ache que o espírito do Roberto manipula o povo que está nas arquibancadas! Porque, pela televisão não há dúvidas da virtuosidade que proporciona.

Pra encerrar, chamou-me a atenção (além dos episódios descritos) o Oscar, hoje, como líder dos baderneiros. Que falar disso? Após ver um ídolo esportivo aos gritos de "Vai cair, Chile, vai cair... uuu...", normal que a platéia "anônima", já iludida pela Globo, siga os passos do (ex)basqueteiro. De doer também. Os atletas Atlas muitas vezes não se mantêm nesse posto.