quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

UMA MODERNIDADE SEM PROIBIÇÕES


"Sobre a dificuldade em obedecer às leis, vale contar uma anedota reveladora, ouvida nos Estados Unidos, onde todos se pensam como fiéis e felizes seguidores voluntários das leis: num bote à deriva, náufragos em desespero calculavam suas chances de sobrevivência quando dois deles, os mais cínicos, resolvem fazer uma aposta bizarra. “Quer ver como eu faço com que todos se atirem ao mar?”, disse um deles, lançando um olhar de desafio ao companheiro. “Fechado”, respondeu o amigo, “quero ver quem, nesta situação, vai trocar a segurança do barco pelo mar aberto.” O Proponente foi até o grupo e disse a um inglês: “As tradições da marinha inglesa demandam que você se atire ao mar. É uma questão de honra e valor; afinal, “Britannia rules the waves”, solfejou. O inglês ficou de pé, fez continência, e imediatamente atirou-se ao mar. Em seguida, o apostador falou para um russo: “Em nome da revolução, você deve se sacrificar pelo coletivo. Abandonando o barco, você faz um ato altruístico e revolucionário, deixando mais água e comida para os mais egoístas e fracos.” Ao cabo de alguns minutos, o comunista pulou do bote. Restavam três pessoas. Diante do americano, ele foi direto: “Se você sair do bote, sua família recebe um seguro de dois milhões de dólares!” O americano disse “Yeah” e atirou-se na água. Triunfante, o apostador comentou: “Eu não disse que fazia com que pulassem?” O amigo respondeu: “Sim, mas ainda faltam dois e, olha, eles são brasileiros, não há como apelar.” “Esses são fáceis”, retrucou o apostador, dirigindo-se aos dois brasileiros que se consolavam mutuamente cantando “é doce morrer no mar”. “Amigos”, disse, “vocês sabiam que existe uma lei que proíbe pular na água?” Mal o apostador havia terminado a frase, os dois brasileiros já estavam, rindo, em plena água."

(Trecho retirado do livro Fé em Deus e pé na tábua ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil, do antropólogo Roberto DaMatta.) 


quinta-feira, 24 de novembro de 2011


Balada das Mocinhas do Passeio

quem são elas
em tão grande número
de onde vêm?
de que subterrâneos porões cavernas?
são os derrelitos do Dilúvio Universal?

você chega corre parte
mas não as mocinhas do Passeio Público
não chegam nem parte
estão sempre lá

incansáveis caminham
pra cá pra lá
sempre estiveram
pra lá pra cá
estarão para sempre

minissaias coxas varicosas
foto na hora
botinhas altas de sola furada
algodão-doce pipoca
boquinhas em coração de carmim
antes ventosas de medusas vulgívagas
psiu! oi tesão! vamo?

atração maior do Passeio
não é a gaiola do mico-leão-dourado
o aquário do peixe-elétrico
as cobras catatônicas o iguana pré-histórico
o pelicano papudo de asas entrevadas
tipo o albatroz no barquinho de Baudelaire

não é o viveiro de aves canoras
epa! Um casal intruso de arapongas
desde quando a-ra-pon-ga trina e gorjeia?

o espetáculo do Passeio
não são as araras bêbadas aos berros
nem o velho cedro florido de garças-brancas

a grande festa do Passeio
são as mocinhas pra cá pra lá
na ronda sempiterna do amor

uma só delas
vale um circo inteiro em desfile
com a anãzinha das piruetas no cavalo pimpão
a engolidora de espada de fogo
a elefanta graciosa no chapeuzinho de flores
a trapezista do duplo salto mortal
sem rede!

discutem gentilmente o preço
uma rapidinha quanto é?
como se vendem fácil
as damas peripatéticas do Passeio Público

ao sol ao frio à chuva ao granizo
com fome com febre com tosse
estão sempre lá
à caça dos clientes furtivos
mais duradouras
que  o carvalho e o plátano seculares

lá estão sempre
as famosas mocinhas do Passeio
nem tão mocinhas
são trágicas são doentes são tristes
quem pode querer tais centopeias do horror
como esperar que alguém as cobice
derradeiros objetos do desejo?

medonhas aberrações teratológicas
galinhas de duas cabeças
treponemas pálidas
íbis sagradas de carapinha negra
aracnídeas hotentotes
gárgulas banguelas gargalhantes?

aí é que se engana
são desejadas sim cobiçadas sim disputadas sim
essas últimas mulheres da Terra
não fossem elas
o que seria dos últimos homens da Terra?

esses hominhos desesperados
sempre com sede com febre com tosse
sobretudo famélicos de um naco de carne
arre danação maldita da carne
urra salvação da carne da vida

são feiticeiras Circes
das verdes águas podres do Rio Belém?
são górgonas grotescas?

pudera com tais clientes
mequetrefes bandalhos escrotos
que não fazem amor
estripam curram vampirizam

são elas blasfêmia abominação escândalo
dos falsos profetas
das mil igrejas de Curitiba
veros cafetões do dízimo?

elas são na verdade o sal da terra
são irmãs de caridade
são madonas aidéticas
são santinhas do Menino Jesus
onde tocam saram os carbúnculos malignos

não as despreze nem condene
doces ninfetas putativas do Passeio
mais fácil uma delas
passar pelo buraco da agulha
que eu e você entrarmos no Reino do Céu

ó bravas piranhas guerreiras
elas serão as sobreviventes
à sétima trombeta do Juízo Final
ao dragão e à besta do Apocalipse

no dia seguinte ao Armagedom
restarão na Terra
as baratas e elas

você chega corre passa
elas não passarão
pra cá pra lá
psiu! oi tesão! vamo?
pra lá pra cá
para todo o sempre
as minhas as tuas as nossas
putinhas imortais do Passeio Público.

(Dalton Trevisan. Poema retirado do livro Rita Ritinha Ritona.)

sábado, 13 de agosto de 2011

Versão em espanhol da história original de "Chapeuzinho vermelho".


Caperucita roja
(Charles Perrault)

Había una vez una niñita en un pueblo, la más bonita que jamás se hubiera visto; su madre estaba enloquecida con ella y su abuela mucho más todavía. Esta buena mujer le había mandado hacer una caperucita roja y le sentaba tanto que todos la llamaban Caperucita Roja.

Un día su madre, habiendo cocinado unas tortas, le dijo.

—Anda a ver cómo está tu abuela, pues me dicen que ha estado enferma; llévale una torta y este tarrito de mantequilla.

Caperucita Roja partió en seguida a ver a su abuela que vivía en otro pueblo. Al pasar por un bosque, se encontró con el compadre lobo, que tuvo muchas ganas de comérsela, pero no se atrevió porque unos leñadores andaban por ahí cerca. Él le preguntó a dónde iba. La pobre niña, que no sabía que era peligroso detenerse a hablar con un lobo, le dijo:

—Voy a ver a mi abuela, y le llevo una torta y un tarrito de mantequilla que mi madre le envía.

—¿Vive muy lejos?, le dijo el lobo.

—¡Oh, sí!, dijo Caperucita Roja, más allá del molino que se ve allá lejos, en la primera casita del pueblo.

—Pues bien, dijo el lobo, yo también quiero ir a verla; yo iré por este camino, y tú por aquél, y veremos quién llega primero.

El lobo partió corriendo a toda velocidad por el camino que era más corto y la niña se fue por el más largo entreteniéndose en coger avellanas, en correr tras las mariposas y en hacer ramos con las florecillas que encontraba. Poco tardó el lobo en llegar a casa de la abuela; golpea: Toc, toc.

—¿Quién es?

—Es su nieta, Caperucita Roja, dijo el lobo, disfrazando la voz, le traigo una torta y un tarrito de mantequilla que mi madre le envía. La cándida abuela, que estaba en cama porque no se sentía bien, le gritó:

—Tira la aldaba y el cerrojo caerá.

El lobo tiró la aldaba, y la puerta se abrió. Se abalanzó sobre la buena mujer y la devoró en un santiamén, pues hacía más de tres días que no comía. En seguida cerró la puerta y fue a acostarse en el lecho de la abuela, esperando a Caperucita Roja quien, un rato después, llegó a golpear la puerta: Toc, toc.

—¿Quién es?

Caperucita Roja, al oír la ronca voz del lobo, primero se asustó, pero creyendo que su abuela estaba resfriada, contestó:

—Es su nieta, Caperucita Roja, le traigo una torta y un tarrito de mantequilla que mi madre le envía.

El lobo le gritó, suavizando un poco la voz:

—Tira la aldaba y el cerrojo caerá.

Caperucita Roja tiró la aldaba y la puerta se abrió. Viéndola entrar, el lobo le dijo, mientras se escondía en la cama bajo la frazada:

—Deja la torta y el tarrito de mantequilla en la repisa y ven a acostarte conmigo.

Caperucita Roja se desviste y se mete a la cama y quedó muy asombrada al ver la forma de su abuela en camisa de dormir. Ella le dijo:

—Abuela, ¡qué brazos tan grandes tienes!

—Es para abrazarte mejor, hija mía.

—Abuela, ¡qué piernas tan grandes tiene!

—Es para correr mejor, hija mía.

—Abuela, ¡qué orejas tan grandes tiene!

—Es para oír mejor, hija mía.

—Abuela, ¡que ojos tan grandes tiene!

—Es para ver mejor, hija mía.

—Abuela, ¡qué dientes tan grandes tiene!

—¡Para comerte mejor!

Y diciendo estas palabras, este lobo malo se abalanzó sobre Caperucita Roja y se la comió.

***


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Um vírus ainda não catalogado

Mais aniquilador que ebola ou Aids é este vírus chamado... jeitinho brasileiro. Ele - há mais de quinhentos anos - vem contaminando milhares de pessoas, as quais, inexplicavelmente, procuram (super)desenvolvê-lo. Ao fim de análises, conclui-se que essa praga ataca diretamente o caráter da nação tupiniquim, gerando diagnósticos alarmantes.

A classe social dos infectados não interfere no avanço fuminante do jeitinho brasileiro. Observa-se que tanto o pobre quanto o rico apresentam os sintomas básicos da virose: corruptibilidade fácil, desgosto por conduta igualitária (ausência de zelo pelo próximo) e incapacidade de admitir ou consertar erros. Caso se arrisque, por exemplo, uma sorologia social, outra reação (nada adversa) se manifesta em palavras esparsas como "Isso num é da sua conta" ou "O importante é que EU tô numa boa".

No sistema educacional, o vírus ataca com sua pior mutação. Mentiras governamentais - ancoradas em comerciais televisivos - tentam esconder o estado terminal em que os pacientes se encontram. Trata-se de professores sem engajamento geral; alunos que desconhecem o vocábulo dedicação; pais relapsos com a educação dos filhos. Essas sequelas do jeitinho brasileiro aparentam não ter cura em meio a enfermos que mal conseguem planejar a própria vida.

A descrição dos efeitos que a virose provoca no trânsito também aterrorizam. Alucinações são percebidas em quem, por exemplo, estaciona na vaga de idoso mas nem sequer chegou aos trinta anos! Após serem alertados do problema, no entanto, os achacados (ah, jeitinho brasileiro...) costumam balbuciar locuções sem sentido, como "É só um minutinho". Há, ainda, doentes agressivos no momento da instabilidade mental - famosa contrarreação.

Outro sintoma perigoso que o jeitinho brasileiro exibe é o jogar a culpa para o próximo, que estava correto. Nesse caso, o contaminado reclama, por exemplo, do colega de trabalho que cumpre rigorosamente os horários da empresa. Em alguns casos, o doente justifica o fato de não pagar dívidas porque "Ninguém paga mesmo!" (perturbação mental clara). Ah!, o paciente que durante meses lê notícias acerca de políticos corruptos, mas continua votando neles, também demonstra sofrer do vírus verde-amarelo.

Comprovadamente, pois, o jeitinho brasileiro caracteriza-se como epidemia. A história do Brasil apresenta descrições claras da origem e do modo de propagação desse mal, mas, infelizmente, nem de longe indica uma solução para seu controle. Obviamente, nem todo brasileiro está contaminado; só que uma reversão, diante de quadro clínico tão instável, parece não mais ter possibilidades - ou, quem sabe, não faz mais sentido.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Um exercício literário meu: conto.

Imagens da traição

Ao voltar do quintal, percebi que vovô, minuciosamente, recontava para mamãe os acontecimentos do passado da família. Ela ouvia-o sofrivelmente, talvez ainda abalada pelo recém sepultamento de minha avó. Ambos acabaram por afundar-se nas lembranças e esqueceram, quando saíram da sala, uma caixa de sapatos em cima do sofá. Não hesitei: corri e apanhei-a, atendendo a uma suspeita de que se trataria de um sacro escopo.

Ao abrir a caixinha, certo trauma me voltou à mente. Um conjunto de fotografias fez-me recordar a primeira festa da família de que participei (verão de 86). A parentada se divertia quase disfonicamente até que um homem soturno apareceu na porta. O cavalheiro cumprimentou homens e mulheres rapidamente, mas demorou-se significativamente na saudação à minha avó. O porquê desse cumprimento alongado imediatamente soou claro para todos da família, exceto para vovô – que devido à bebedeira, ou simplesmente por ingenuidade, só reconheceu a conotação daquela imediata figura masculina ao ouvir dos lábios da esposa:

- Estou indo embora com esse homem!

As próximas fotografias… Ah!, em cada uma se encerravam pedaços diferentes da tristeza de vovô. Via-se, por exemplo, um tio que, se a memória não me trai, argumentava meia dúzia de palavras esvoaçantes. Em outra foto, angustiava o desespero da minha mãe ao perceber que a família, a partir daquele instante, desestruturar-se-ia.

Houve até quem defendesse a atitude da minha avó. Vejo, em um negativo amassado, um tio criticando vovô por causa da choradeira – alegava que se tratava de mau exemplo para os mais novos. Em um retrato borrado, irritou-me o cinismo de duas tias, solteiras, que se sussurravam:

- Papai foi muito manso para não perceber…
- No fundo, ele merece!

Mas só havia uma culpada pela desestruturação da família: minha avó. Aliás, chamá-la de "avó" era uma vingança: eu fizera questão de, e instantes, esquecer seu nome. E continuei odiando-a mesmo quando, cinco meses subsequentes à tragédia, ela voltou para casa (fora abandonada pelo amante). Vovô, mergulhado na eterna paixão, recebeu sorridente a companheira. Uma das fotos constantes na caixa de sapato era exatamente a do dia em que ela retornara - sorriso cínico escondido no batom- ao lado de um vovô radiante.

Necessário informar: na caixinha sagrada, existem pelo menos mais cinco fotos de “voltas” da minha avó.

Por isso, naquele dia em que consegui descobrir o que havia dentro da caixa de sapatos de vovô, não derramei nem sequer uma lágrima. No enterro da minha avó, duas horas antes de eu abandonar o quintal, gargalhei em vez de chorar: outra forma de desforra. E enquanto atentava para as demais fotos presentes na caixa de sapato de vovô, sentenciei austeramente: morta, minha avó não incomodaria mais.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A melhor banda: 11 de janeiro de 1985.

Devido a uma greve ocorrida em 1984 no curso de arquitetura da UFRGS, as aulas nessa instituição se estenderam até o mês de janeiro de 1985. Por conta disso, alguns festivais foram realizados pela universidade, a fim de amenizar a situação. Na onda desses eventos, Humberto Gessinger - guitarra e vocais - uniu-se ao baterista Carlos Maltz, ao baixista Marcelo Pitz e ao também guitarrista Carlos Stein e montaram uma banda para única apresentação. O nome do grupo, Engenheiros do Hawaii, foi uma maneira de mangar dos "rivais" das engenharias.

Obviamente, as apresentações se multiplicaram em palcos de Porto Alegre e rapidamente atingiram o cenário nacional. Algumas mudanças de integrantes ocorreram (Carlos Stein, por exemplo, acabou grupo Nenhum de Nós) até que se chegasse à formação clássica da banda: Humberto Gessinger no baixo e vocal; Augusto Lickz na guitarra; Carlos Maltz na bateria. Esse trio consagraria, entre 1987 e 1996, a qualidade musical da banda gaúcha.

Todavia, após um bocado de álbuns juntos, o trio começou a separar-se. Lickz foi o primeiro a debandar e, de quebra, brigou judicialmente pelo nome Engenheiros do Hawaii. Graças ao bom senso jurídico, perdeu a disputa para Gessinger e Maltz. Este, por sua vez, também acabou por deixar os EngHaw, mas de maneira mais amigável. Tanto é que participou da gravação de várias músicas lançadas após sua saída do conjunto.

Gessinger permaneceu até o álbum "Novos Horizontes" (2007) como o único integrante original dos EngHaw. Após a turnê desse disco, o líder da banda anunciou que haveria uma pausa nas atividades. O motivo é que Gessinger, ao lado de Duca Leindecker (Cidadão Quem), passou a dedicar-se ao duo Pouca Vogal. Há rumores, entretanto, de que os Engenheiros do Hawaii poderão voltar para uma turnê de aniversário - só não se sabe de quantos anos.

Independente da formação, do primeiro ao último álbum, a banda sempre gravou músicas que se tornaram verdadeiros hinos, como "Toda forma de poder" (1º disco), "Infinita highway" e "Refrão de bolero" (2º disco), "A promessa" (9º disco) ou "Vertical" (último disco). Engenheiros do Hawaii, para os velhos ou novos fãs, sempre será lembrada como a banda mais fiel ao que se propôs compor para o rock nacional.

***
- Site oficial:
 www.engenheirosdohawaii.com.br
- Livro Pra ser sincero
 http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=5088689&sparc=google&gclid=CL-utcTEsqYCFchl7Aode2AGn

domingo, 24 de outubro de 2010

Osso duro de roer

Sinto-me incapaz de captar todos os elementos (tridimensionais) da arte cinematográfica. Mesmo assim, arrisco algumas críticas, quase sempre encorajadas pela subjetividade, acerca daquilo a que assisti. Rotineiramente - e isto não afeta diretor algum, sei bem -, não sou bonzinho em minhas impressões; hoje, entretanto, o ponto-de-vista é afirmativo.

Vi o tão comentado Tropa de Elite 2 (TE2). De fato, a continuação da série é melhor que a primeira parte. Sem prender-me aos aspectos intrínsecos à "arte pela arte", a crítica social presente em TE2 apresentou algo pela mídia obscurecido: sugeriu-se que tráfico, propina e milícias podem estar associados ao governo. Essa sugestão, metaforizada, seria passível inclusive de comprovação.

Em conversas com amigos, é comum chegarmos a idênticas conclusões. Fernandinho Beira-Mar, por exemplo, deve ter caído porque mexera com "gente grande". Esse pessoal "gente-grande", então, não poderia estar na Assembleia, na Câmara, no Senado? Não se mencionam nomes reais, daí a metaforização, porque o problema é o sistema político em si. Sai governador, entra governador... E as ações calhordas tendem a continuar.

Muitos brasileiros encenam uma democracia que permite tudo - menos a honestidade. É histórica a assertiva de que em terras tupiniquins se aceita a corrupção passivamente. Cada uma a seu modo, as legítimas impressões sociais são constantemente mal interpretadas. Como comprovação disso, leia-se "somente" sobre o resultado das últimas eleições, deixe-me ver..., no Paraná e em São Paulo: talvez, caiba em uma só mão o número de deputados honestos.

No filme de José Padilha, essa imobilidade social fica extremamente explícita. O deputado Fraga ou o subsecretário Nascimento representam dois extremos que lutam pela mesma melhoria. Ao final, direitos humanos e BOPE seriam as formas de se destruírem males sistemáticos como tráfico, corrupção, ignorância. Mas fica difícil encarar o sistema problemático quando mídia e governo se unem em prol da futilidade. O povo, por sua vez, prefere almoços de épocas de campanha à tentativa de mudanças, escolhe pagar propina e, junto, o pato.

A gente não precisa só de ONG ou de boa vontade social (mensagem que Tropa de Elite 1 já apresentava). É imprescindível, ex tempore, uma rede de atitudes que siga o exemplo viril de policiais ainda dignos ou de políticos "ficha-limpa". Precisamos de homens públicos sérios, de mídia não-sensacionalista. Viver à sombra de candidatos redundantes, em todos os sentidos da palavra, simplesmente não mais convém. Aliás, não deveriam convir, também, as demais aceitações do elemento bizarro que ocorrem no Brasil.

Tropa de Elite 2, ao fim, ainda consegue repassar uma mensagem de esperança: "cacete" na estrutura política nacional! Se não houve resultados positivos com o partido do bico grande, que ele volte para a floresta. Uma vez que a estrela tenha parado de brilhar, que se elejam outros candidatos a astro. O indivíduo nas cadeiras políticas é o de menos; devemos nos preocupar com o componente abstrato. Se for necessário, que os direitos humanos protejam os homens honestos, que "os caveiras" metam a mão na cara dos corruptos.

E que se exclua, do cenário político nacional, a maldita palavra "renovação". Renovar a máfia, a corrupção? Sejamos, conforme se configura TE2, menos justus (se me permitem o trocadilho): que haja, sim, uma revolução.

domingo, 26 de setembro de 2010

Comparação e adversidade

Improvisos provêm de árduo estudo. No jazz, músicos treinam bastantes escalas antes de, "no susto", criarem (maravilhosas) melodias. Assim, na comédia: improvisada na técnica tradicional, a piada se torna arte.

Rir mexe com sabe lá quantos músculos. Talvez, deixe mais bonita a pessoa. Quando dói a barriga: gargalhadas conseguiram recuperar o dia perdido. Momentos em que o sono não poderia ter aparecido: sorrisão de repente desperta até encarnações anteriores. Trata-se da magia do bom humor.

Sofri críticas por ser pedagogicamente lúdico. A beleza de um aprendizado sorridente, não obstante, supera os comentários insustentáveis. Sem argumentação, as broncas: na literatura, inúmeros casos de bons escritores dedicados ao humor. Por que, então, mudar a didática para um sistema carrancudo?

Não vejo graça em perder o cômico acaso - e abro um Verissimo. Piadinha inteligente sempre vai bem. E chato, sim, quem não admira humor "sagaz". Irrita interpretação negativa a brincadeiras com alguém público. Como se humorista precisasse de  autorização, de licença.

Jazz e humor são, realmente, qualidades inquestionáveis. Naquele, com escalas perfeitas; neste, com assuntos de uma época. A população deveria atentar mais a ambos. Mas sentar em praças para uma zorra soa mais legendário. Fora - a inteligência de muita gente - jogada pela janela?


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Além dos olhos

"Quase morri" pode melhorar. Enobrecimento da vida é caminho mais sábio. Há susto a quase todo momento; fuja-se do abstido comum.

Ouço "Dia especial" (Cidadão Quem). Esse lance do outro está certíssimo. Encaixa-se para momento crítico: em vez de "quase morri", que tal "estou vivo!"? Parece ingênuo, mas muda o entorno.

Trata-se de costume. Estranha a felicidade no pós-quase-tragédia? Tão-somente negativismo cotidiano. Compreendo, há pessoas que não sorriem; não entendo, todavia, essa forma de vida delas. Posso não ser o bem-humorado, mas piada é sagrado.

Outra música legal é "Terra de gigantes" (Engenheiros do Hawaii). Não conseguir tudo após o crescimento gera conclusão: juventude, não se venda. Totalidade, não; o suficiente, sim. Ah, esse suficiente depende dos desejos de cada um - não os condeno.

De música em música, mensagens seguras se (des)camuflam. Poderia ser num livro ou numa pintura: não sei. Mãos altruístas, cada vez mais adultas... Quando algo está errado, precisamos de um sorriso (pode ser um riso). Há, porém, quem recuse: sei não.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Um péssimo hábito

Pessoas não seguem regras. Propositadamente, confundem "ser rebelde" com toscos momentos de não cumprir orientações. Desobedecer se tornou norma.

No trânsito, a melhor argumentação. Desrespeito às vagas destinadas a idosos, deficientes. Alega-se: paradinha rápida; muita disponibilidade para poucos velhinhos. Ousado, o mal-educado xinga o repórter questionador. Você tem a ver com minha vida?

(Friso: nada de rebeldia. Na real, educação precária. Desconfio de que esssa insensatez se tornou cultural ao brasileiro. Afinal, uma escapulida não faz mal a ninguém.)

Há o cigarro. Caso não fumem meu cabelo, tudo bem. Existe lei, contudo, que proíbe o fumo em "ambientes fechados de uso coletivo".  Por que tentar no banheiro ou dependurado na janela? Vá para a calçada, longe da marquise!

Discutam-se as determinações sem que se gere baderna. Nelson Rodrigues escreveu que brasileiro sofre de "complexo de vira-lata". Essa caracterização se adequa à falsa impressão de independência que descumprir uma regra traz.

Demora-se a perceber que estacionar ou fumar em locais proibidos é tolice. Na verdade, às vezes, nunca se percebe. Infelizmente.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Finalmente, a Copa acabou

Sou apaixonado por futebol. Adoro Copa do Mundo e a história de cada edição. Associar o campeonato mundial da FIFA à história ou à política é uma das minhas distrações prediletas. Na biblioteca particular, há bastantes volumes acerca do torneio quadrienal.

Que explica o título? Quantidades de chatice que se leem na imprensa. Obviamente, não me importo quando o Seu Joaquim, da mercearia, palpita sobre escalação. Julgo abjeto aguentar Milton Neves e companhia enchendo o saco com repetições infundadas. Sob derrotas, cansativos "argumentos": não ficaram bases para a próxima Copa; o treinador é um burro; o novo técnico deve ser Luxemburgo...

Outra maçada: pseudocríticos de frases como "o brasileiro esquece os problemas" ou "a Copa no Brasil será para desvio de verbas". Espalham uma ilusória ideia de que Copa do Mundo significa alienação. Como se político não roubasse fora de evento esportivo. Como se ninguém percebesse o assalto ali na esquina.

Gosto bastante de bandeirinhas em janelas. Trata-se de torcida, não de (um historicamente impossível) patriotismo. A vuvuzela não é necessária, concordo; bandeirinhas, todavia, são bem-vindas! Elas refletem, às vezes, um sorrisinho criativo entre a Ordem e o Progresso.

Copa de 82 - uma das melhores histórias do meu pai. Naranjito, aqui em casa, na memória: o velho queimou os mascotes após a derrota da seleção do Telê. Ao meu futuro filho, contarei a primeira Copa da África; um Brasil campeão no Maracanã; colunistas famosos que ditam besteiras.

Finalmente, sim, a Copa acabou. Que "jornalistas" esportivos nos deixem em paz. Que torcedor, então, conte suas histórias sobre futebol. Assim, haverá apenas reclamações sobre arbitragem e laranjas.


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Futebol é o melhor esporte. Derby do meu time: irrito-me, se perdedor; abraços e cerveja, se vitorioso. Ah, fico indignado com quem não gosta do Inter.

Um técnico à longa distância. Gosto de narrar xingar dar ordens substituir xingar de novo comemorar. Altero o esquema tático do time e, quando os jogadores me obedecem, a classificação vem fácil. Nem que seja aos 43 do segundo tempo.

Quando os rivais perdem, meu time é campeão do mundo de novo. Todo recurso vale contra o inimigo. Birra de criança: se o título não é meu, não pode ser dele(s).

Assisti a um vídeo no youtube. Tributo, homenagem. Uma lágrima fugiu quando repercebi o tamanho da nação colorada. Gol; gritos da torcida; gol; diretoria revoltada; gol; garra dos jogadores. Vivas à "seriedade lúdica" de um título.

E vivas ao colorado campeão de tudo. Enquanto nenhuma outra equipe conseguir essa marca, não ocorrerão discussões. Meu coração será sempre vermelho - na verdade, qual coração não é assim?


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ainda se anda em círculos?

Quando pequeno, adorava calor. O suor na testa, o rosto queimado. Sensação térmica elevada: brincar. A tarde toda.

Futebol no pelando asfalto. A tampa do dedão sempre no "campo". Canela com canela? Discussão. Às altas horas, dores apareciam. Para curar, faixa na coxa ou cintadas da mãe.

Permissão para encher a piscina. Chato: não se misturavam menino e menina. Percebia-se pudor nas relações sociais (na época, eu não curtia "esse tal 'pudor'"). Cabeça lá no fundo - quem aguentaria mais tempo? Velho sabão-em-pó. Outras dores às altas horas.

Festas de fins de semana. Frio e chuva atrapalhavam (perigo de gripe). Se calor, cada sábado na casa dum amigo. Ninguém podia tomar vinho, cerveja. Mas em esconderijo tudo é possível. Incrivelmente, todos voltavam íntegros para casa. Caso contrário, as dores surgiriam às altas horas.

Namoros escondidos. De novo, pudor social: longe do pai da menina. O meu, do tipo "Vai lá, filhão!". Namorico de piá de quinze anos: garanhão: o melhor drible; mais tempo no fundo d'água; quem bebia mais. Processos de conquista...

O calor intenso continua, mas não mais o acho divertido. Não preciso de namoradinhas. Estou sem tempo para futebol na rua. A piscina secou. E falta liberdade para correr sem responsabilidade, cantando. Por aí.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Do lado esquerdo do peito

Amigos?! Por perto. Não muitos: tudo em excesso faz mal (este, conselho amigável da mamãe). Mais fácil atender a pequenas quantidades - amigos, sempre atenciosos!

Para quem ligar. Torrar bônus em blábláblás acerca de vestibular, passado, livros de chamada. Conversar no msn. Enviar uma frase certa ou sempre apreciar as histórias fascinantes. De madrugada, cada bizarrice, risos, ironia ou comoção. Depende da liberdade da amizade.

O prazer da conversa com o pai. Contas, conselhos, avisos. As broncas fogem à função familiar. Mãe, do conselho: "Leva o guarda-chuva, menino". Não adiantou teimar! Subsequentemente, chá de hortelã. Dela, claro. Sim - qualquer um faria igual... Mas mãe amiga é o que há.

A companheira dorme tranquila. Amizade é andar juntos no mercado; paciência para estranhos hábitos. O parque com o cachorro; a indecisão na escolha do restaurante (lasanha concilia!). Um beijo antes de dormir e a certeza de que ao lado há a melhor mão do mundo - a da paixão-amiga.

Shakespeare escreveu (bem). Escolhi muito... a dedo. E estimo ter sido bem escolhido. Brigas e gargalhadas... Emoção por causar uma lagrimazinha! Brilham conclusões. À noite, soa uma música certíssima; o café que nunca sai; a cerveja de improviso às 23h.

Um abraço carinhoso, sempre, ao final: a gente é feliz. Amigos?!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O perigo do conhecimento

Gosto muito do Renascimento Cultural. Perceber as técnicas utlizadas em La Gioconda ou ler A Midsummer Night's Dream são prazeres que possuo. Contudo, o que mais me admira no período renascentista é o espírito dos pensadores daquela época.

Também sou metido a ler sobre "tudo". Comprei, a exemplo, The Universe in a Nutshell. Quero divertir-me entre relatividade e buracos negros. Quem lê, pensa "O que isso tem a ver com Machado de Assis?". Confesso não me importar com a resposta. Tento, ingênuo, diminuir a lacuna entre mim e o conhecimento.

O início em uma área diferente "da nossa" é trabalhoso. Inevitáveis, inclusive, algumas gafes. As dúvidas... (De pleomorfismo à influência dos isótopos do oxigênio nas chuvas da Amazônia, leva tempo para ocorrerem as conclusões almejadas.) A dor de cabeça da danada filosofia... O cálculo...

Música; esporte; cinema; lúdico. Gramática, redação e literatura. Deve ser o espírito renascentista num cidadão contemporâneo! Pensar que, ainda, tanta coisa a se compreender - curiosidades ou origem da vida.

E, quem sabe, aclarar mais um pouquinho sobre amor. Mas só um pouquinho.